O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez dois longos discursos no último domingo, 1º de janeiro, ao tomar posse, em Brasília. Em nenhuma das falas, amplamente divulgadas e relidas pela mídia, há uma única menção à corrupção. É o sinal mais claro de que, ao chegar ao poder, pela terceira vez, o petista pretende …
???? Operação Lava Passado, de volta ao poder, Lula tenta reescrever a história política do país empurrando a sujeira da corrupção do PT para os seus adversários

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez dois longos discursos no último domingo, 1º de janeiro, ao tomar posse, em Brasília. Em nenhuma das falas, amplamente divulgadas e relidas pela mídia, há uma única menção à corrupção. É o sinal mais claro de que, ao chegar ao poder, pela terceira vez, o petista pretende oficializar uma operação de lavagem do passado.
A estratégia não é nova e já havia sido colocada em curso na campanha eleitoral. O PT não escondeu que buscou votos de eleitores jovens — quem nasceu em 2005, por exemplo, ano do estouro do Mensalão, não tem memória nem desse nem de outros escândalos aumentativos, como o Petrolão. Mas, ao subir a rampa do Palácio do Planalto, Lula deixou claro que seu novo mandato pretende não só passar uma borracha na história, como reescrevê-la.
Dos intermináveis parágrafos lidos no plenário do Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, um dos mais simbólicos foi o trecho no qual atribui ao governo Jair Bolsonaro “dilapidar” as estatais e os bancos públicos e entregar seus cofres à “rapinagem”. Ao deparar com a declaração abaixo, qualquer brasileiro com acesso à informação nos últimos 20 anos poderia achar que Lula falava da era petista no poder.
“Desorganizaram a governança da economia, dos financiamentos públicos, do apoio às empresas, aos empreendedores e ao comércio externo. Dilapidaram as estatais e os bancos públicos; entregaram o patrimônio nacional. Os recursos do país foram rapinados para saciar a cupidez dos rentistas e de acionistas privados das empresas públicas”A fala foi aplaudida por 200 parlamentares da Câmara e do Senado, desde os aliados de sempre até o grupo do “puxa-saquismo” de ocasião, bem representado pela deputada Flávia Arruda (DF), ex-ministra de Bolsonaro, flagrada cochichando ao pé do ouvido de Lula: “(sic) Tamo junto”. No dia seguinte, ela se desfiliou do PL.
Sob aplausos da claque parlamentar, Lula descreveu o que chamou de herança de “terríveis ruínas”. Segundo ele, foi esse o diagnóstico encontrado pela multidão de quase mil auxiliares que participou do gabinete da transição no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília. A profusão de adjetivos que constam no relatório, contudo, não encontra respaldo na matemática, como mostra o quadro abaixo. As estatais federais (Petrobras, BNDES, Banco do Brasil e Eletrobras) tiveram lucro de R$ 188 bilhões no ano passado.

Um detalhe não pode ser ignorado. Esse discurso, o primeiro do dia, foi feito diante de um Legislativo também assombrado pelo próprio passado de corrupção — foi cúmplice de Mensalão, Petrolão, sanguessugas e desvios no Orçamento. Na legislatura da Câmara encerrada em dezembro, um terço dos deputados esteve em algum momento enrolado com a Justiça. Como a renovação na Câmara foi uma das mais baixas nas urnas (294 deputados foram reeleitos), tudo indica que o cenário seguirá o mesmo. Foram só 27 vagas em jogo, que resultaram 22 novas caras — cinco conseguiram se reeleger.
Lei das Estatais só para os outros
Foi o Congresso, aliás, quem ajudou Lula a desfigurar a Lei das Estatais antes mesmo da posse. Os parlamentares aprovaram a “lei Mercadante”, que acabou com a quarentena de três anos para políticos ocuparem o comando de estatais e bancos públicos. O apelido foi porque a votação inicialmente beneficiou o ex-senador Aloizio Mercadante, que coordenou a campanha de Lula e administrava a fundação petista Perseu Abramo. Ele foi escalado para presidir a máquina de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A mudança na regra, contudo, vai beneficiar muitos outros, porque é o resgate da velha política.

A Lei das Estatais foi criada em 2016, logo após o impeachment de Dilma Rousseff, como uma blindagem das empresas públicas, justamente ao que Lula chamou de “rapinagem” — só que dos políticos. Era um legado da Operação Lava Jato para profissionalizar a governança da máquina pública e evitar novas pilhagens, como o Petrolão. Há uma semana, porém, Lula adiantou o que pensa sobre esse tema: “No meu governo, não há medo de escolher políticos (para chefiar estatais)”.
Lula indicou o petista Jean Paul Prates (RN), ex-suplente de senador, para conduzir a Petrobras. Prates é dono de quatro grandes empresas de petróleo, óleo e gás no país. A Lei das Estatais proíbe esse conflito de interesses, mas o governo Lula disse que não vê problema — até agora, aparentemente, ficou por isso mesmo. Prates apenas disse que vai se afastar da direção das empresas e tudo bem. O Congresso não reclamou, nem o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF).

Em abril do ano passado, quando o governo Bolsonaro indicou o economista Adriano Pires para presidir a Petrobras, houve uma enorme gritaria do PT e do consórcio da velha imprensa. Pires tem um empresa de consultoria que atua na área. O jornal O Estado de S. Paulo fez um editorial intitulado: “É para isso que serve a Lei das Estatais”.
O texto dizia: “A despeito do caos que o bolsonarismo impõe ao país desde o início de seu mandato, a resiliência do arcabouço legal e das instituições tem sido um freio aos desmandos do presidente da República. Depois de mais de 20 anos à frente de uma consultoria que atua a favor de petroleiras e empresas de gás, muitas delas com interesses diametralmente opostos aos da companhia, o economista não seria capaz de cumprir os requisitos da Lei das Estatais”.
Nomeações como a de um petista, recheada de conflitos de interesses pessoais, para chefiar a maior estatal do país, que até hoje convive com as manchas do assalto do Petrolão, chacoalharam o mercado desde o final da eleição. Somadas à aventura fiscal irresponsável, como a PEC da Gastança e a promessa de acabar com o teto de gastos, o combo já produziu estrago. Na virada do ano, as 400 empresas listadas na Bolsa de Valores (B3) contabilizaram perdas de R$ 546 bilhões.
“O SUS foi a instituição mais prejudicada por uma estupidez chamada teto de gastos, que haveremos de revogar”????Ladeira abaixo…
— Elisa Brom (@brom_elisa) January 4, 2023
Empresas perderam R$ 546 bilhões em valor de mercado desde a eleição. pic.twitter.com/d4ok87Fijo

Ministério da Verdade
Na terça-feira 3, passou quase despercebido o anúncio da criação de um órgão dentro do governo para decidir o que pode ou não ser dito no país. O nome desse monstrengo jurídico é Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, subordinada à Advocacia-Geral da União (AGU). Outra ramificação do órgão vai se chamar Procuradoria Nacional da União de Defesa do Meio Ambiente e do Clima. O responsável é Jorge Messias, o novo ministro da AGU, que ficou conhecido como “Bessias”, quando auxiliava Dilma Rousseff.
A finalidade é muito clara: de acordo com o ministro, a procuradoria vai adotar medidas em resposta a tudo aquilo que julgar “desinformação”. Ou seja, na prática, o Executivo pode atuar no compasso do Estado policialesco imposto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Os ataques a autoridades não serão mais tolerados”, disse Messias.
Nesse sentido, também o ministro da Justiça, Flávio Dino, colocou a Polícia Federal a serviço do Supremo, para punir quem, por exemplo, protestar contra um ministro da Corte em voz alta num aeroporto, como aconteceu com Luís Roberto Barroso nesta semana em Miami. A partir de agora, atos como esse tendem a terminar em prisão — como ocorre na Venezuela e na Bolívia.
Barroso é confrontado por passageiros em aeroporto de Miami
O novo órgão do governo Lula já foi apelidado de Ministério da Verdade, em referência ao livro 1984, de George Orwell. Não causará surpresa se, nos próximos anos, forem proibidas menções a cenas de petistas com dólares na cueca, dinheiro encontrado em malas, um tal de Marcos Valério, que operava o Mensalão, a refinaria de Pasadena (Texas), comprada na gestão de Dilma Rousseff — a que sofreu um golpe — e personagens como Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró.

Está em curso a “Operação Lava Passado”. Porque, como disse o apresentador da TV Globo William Bonner durante a posse de Lula, “até as nuvens de Brasília agora estão mais bonitas”.
Fonte: Revista Oeste
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