E-STÔNIA: Estônia: o novo Vale do Silício? Veja e entenda:

Mais lidas
Gabriel
CEO do Foco no Fato. Engenheiro Civil, pós graduado em Pavimentação de Estradas e Rodovias e realizando um MBA em Gestão Empresarial pela FGV.

A Estônia é considerado um dos países mais tecnológicos do mundo.

Lá, a internet é um direito social de todos os habitantes, assim como água e luz.

Atualmente há apenas 3 situações a qual o comparecimento do indivíduo a um órgão público é necessário: para se casar, para se divorciar e para vender um imóvel.

Até as eleições na Estônia são feitas via internet.

Por isso qualquer lugar público do país tem wi-fi ilimitado grátis.

Os planos privados lá custam apenas 10 euros.

A Estônia hoje é tida como a mais avançada sociedade digital do planeta. Berço de startups como Skype e Transferwise, o país foi recentemente considerado o mais empreendedor da Europa pelo Fórum Econômico Mundial. Com um ecossistema vibrante de startups, sistema tributário simples, abertura de empresas em 2 horas, 99% dos serviços públicos digitais e educação pública de excelência (quarta colocada no ranking do Pisa), a Estônia tem chamado atenção do mundo como um forte candidato a “novo Vale do Silício”. 

Para entender o país, o ecossistema de tecnologia e as oportunidades para startups e empresas brasileiras, é preciso olhar a história recente da Estônia e o modelo de desenvolvimento econômico da Estônia, composto por sei fatores (sociedade civil; vontade política; instituições e legislação; educação; empreendedorismo e investimentos; tecnologia):

1. Sociedade civil

Tallinn Estonia Dawn

Além das ocupações que a Estônia sofreu desde 1200, durante a Segunda Guerra Mundial o país foi anexado pela URSS. Após 50 anos de experiência no regime comunista, em 1991 a Estônia readquiriu sua independência (celebrado amplamente no último dia 20 de agosto) e se encontrou numa situação paradoxal: se por um lado estava livre, por outro, estava esfacelada, sem infra-estrutura, recursos e com uma estrutura de hiperburocracia. 

Alguns estonianos dizem que aconteceu um choque de realidade logo após os primeiros meses de independência em relação à União Soviética, no início dos anos 1990, e que foi isso que impulsionou a reconstrução do país. Ao se reabrir para o mundo do ponto de vista de publicação e análise de índices socioeconômicos, o governo do país constatou que a relação de PIB per capita entre Finlândia e Estônia era 1:1 em 1945 e de 275:1 em 1991 (lembrando que a Finlândia se manteve independente e com um sistema de economia de mercado nesse período). Em 2018, o PIB per capita anual da Estônia chegou a 18.000 euros (US$ 21,2 mil), um crescimento de 286 vezes em menos de 30 anos.

2. Vontade política

A diferença abismal na renda per capita e a sensação de “ter parado no tempo”, junto com o sentimento de identificação nacional e autodeterminação estoniana serviu de força motriz para organização da sociedade civil como base do modelo de desenvolvimento econômico. Um dos principais movimentos da sociedade civil organizada foi a criação de uma nova classe política, à época bastante jovem (Mart Laar foi eleito primeiro-ministro em 1992, 32 anos de idade), com inclinações liberais e responsável pela nova constituição e redesenho das instituições. Outro fator está relacionado à definição de políticas públicas dentro de um planejamento de médio prazo para as necessárias reformas profundas. E, independente de qual partido ou liderança estava à frente do governo, sua execução era continuada.

3. Instituições, legislação e políticas públicas

Quando se fala sobre Estônia e seu governo digital, a mídia coloca um foco talvez demasiado nos aspectos puramente tecnológicos. O mais importante é entender o conjunto de elementos que viabilizam essa estrutura, que passam obviamente por tecnologia, mas principalmente por elementos analógicos. Neste sentido, é reconhecido e cada vez mais divulgado pelos estonianos, de que é aspecto legislativo é que se encontra uma das grandes inovações do país. Quanto a este ponto, algumas lideranças da Estônia entendem que este arcabouço jurídico criado na década de 90 para contemplar, por exemplo, uso da internet e serviços eletrônicos, foi uma combinação de competência + sorte + falta de outra opção: 

  • Competência: Estônia com vocação em ciência e tecnologia e visão estratégica do potencial da internet.
  • Sorte: ter a oportunidade de definir uma constituição e aparato público em período coincidente com o surgimento da internet.
  • Falta de opção: não ter recursos para reconstruir a estrutura burocrática tradicional.

No fim, independentemente do peso de cada variavel, o fato é que a decisão da Estônia permitiu que o país desse um salto de desenvolvimento (inclusive nome de um dos projetos de informatização de escolas e cidadãos – Salto do Tigre) e, metaforicamente, é possível ver que a forma de a Estônia recuperar o tempo perdido foi pulando o presente do ponto de vista de não ter que reconstruir uma estrutura burocrática tradicional para depois desburocratiza-la e digitalizá-la, mas sim renascer já digital e enxuta.

Esta dimensão das instituições enxutas e legislação viabilizadora da desburocratização e digitalização é uma frente que oferece grandes oportunidades para o setor público no Brasil, pois um ditado famoso aqui na Estônia diz que: “Digitalizar a burocracia é transformar computadores em máquinas de escrever”.

4. Educação

No que se refere à educação, a maior universidade da Estônia (Universidade de Tartu) foi fundada em 1632 durante a ocupação sueca. Apesar e outros períodos de dominações, verificou-se uma relativa preocupação e investimentos em educação de longa data no país. Hoje, o modelo educacional da Estônia se baseia no ensino público (básico e superior) igualitário e de excelência. O país figura, atualmente, em #4 no ranking do PISA para ciência, leitura e matemática (sendo considerada a melhor educação do mundo ocidental) e em #1 em alfabetização financeira (também pelo PISA).

Para o ensino superior, o modelo também gratuito e principalmente com pesquisa aplicada, tem acelerado a criação de novas startups (o Skype, por exemplo, foi fundado por 4 sócios, sendo 2 deles alunos de universidades estonianas na época).

Por fim, na área educacional as oportunidades estão tanto para alunos brasileiros interessados em intercâmbio ou o curso de graduação ou pós-graduação, como também para gestores educacionais que queiram conhecer o modelo de ensino básico ou superior da Estônia.

5. Investimentos e empreendedorismo

Considerando que, no período pós-soviético, a Estônia se encontrava sem recursos e com infraestrutura precária, boa parte da estratégia de desenvolvimento regional esteve baseada em parcerias público-privadas, privatizações e atração de investimentos estrangeiros. Foram formados diversos consórcios e iniciativas entre governo e empresas para, por exemplo, viabilizar acesso à internet em todo o país (os bancos eram os maiores interessados nisso, pois desta forma, eliminariam a necessidade de instalar agências nos diversos vilarejos). 

Além disso, foi dado enfoque significativo na construção de um ecossistema favorável ao empreendedorismo (em especial de tecnologia da informação e comunicação), com baixos níveis burocráticos (a abertura de empresas na Estônia leva em média três horas) e incentivos ao crescimento de novas empresas (principalmente nos aspectos fiscal e de exportações).

Mesmo com 10% de sua população trabalhando em TI, a Estônia possui um gap significativo de profissionais na área. Isto abre oportunidade para estrangeiros interessados em trabalhar e morar no país, facilitados pelo trabalho do “Work in Estonia”. Mais informações aqui.  

Para freelancers e empreendedores brasileiros na área de tecnologia, a Estônia abriu suas portas e tem recebido milhares de brasileiros interessados em se conectar com o país, com os objetivos de:

  • Entender o mindset global de startups Estoniana: eventos como o Latitude59, que acontece na próxima semana e a Missão Digital de Startups em setembro (mais infos abaixo) são ótimas oportunidades de se conectar com o ecossistema estoniano.
  • Explorar oportunidades de expansão no mercado europeu, utilizando a Estônia como base (caso da OriginalMy e Tutor.id). Há dois programas governamentais para viabilizar o soft landing: 
  1. e-Residency (Cidadania Eletrônica): através dele, é possível se tornar cidadão digital estoniano e, com isto, abrir e gerir uma empresa remotamente. Atualmente, são mais de 60.000 e-residents e 10.000 empresas. Mais informações aqui.
  2. Startup Visa: este programa permite a startups estrangeiras se estabelecer no país para explorar os benefícios do ecossistema local e expandir seu negócio globalmente. Ele também viabiliza a contratação de profissionais estrangeiros de TI de forma acelerada. Maiores informações aqui.
  • Se conectar com mentores, aceleradoras e investidores: como berço de empresas como TransferWise e Skype, a Estônia tem produzido uma geração de empreendedores de sucesso, os quais atuam com investimentos e programas de aceleração e mentoria

Para empresas de tecnologia de médio e grande porte, também é possível destacar as seguintes oportunidades disponíveis na Estônia:

  • Se conectar com startups inovadoras estonianas: dados do Startup Estonia (agência governamental de fomento ao ecossistema local) hoje é formado por 1.000 startups e considerado o mais empreendedor do mundo, devido às facilidades de se abrir um negócio e espírito empreendedor. Acesse aqui o banco de dados de startups estonianas.
  • Se conectar com labs e centros de P&D: a TalTech, universidade técnica de Tallinn, possui o laboratório Mektory, no qual empresas como Samsung, Ericsson e Mitsubishi colaboram com pesquisadores e startups na elaboração de soluções inovadoras e específicas 

Há ainda oportunidades para profissionais autônomos que gostam de viajar o mundo enquanto trabalham – os chamados nômades digitais. Recentemente, a Estônia lançou o Visto para Nômades Digitais, que irá permitir que freelancers permaneçam por até 1 ano no país com visto de trabalho e 90 dias adicionais no Espaço Schengen da União Europeia.

6. Tecnologia

Como último componente do modelo de sociedade digital da Estônia temos, enfim, a tecnologia. As soluções fundamentais do modelo de governo eletrônico do país são: 

ID Card: cartão individual com chip número único de identificação (utilizado para todos os acessos e serviços públicos). Obrigatório por lei, é responsável pela autenticação de usuários, permitindo, assim, o uso de sua segunda função – assinatura eletrônica com validade jurídica.

X-Road: trata-se de solução open-source de troca de informações entre diferentes bancos de dados (independente de suas arquiteturas), que permite a comunicação entre diferentes setores e repartições.

Fonte: MIT Sloan Review

Publicidadespot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Publicidadespot_img
Últimas notícias

🔶 TSE recebe, hoje (8) em Brasília, grupo de advogados conservadores. Reunião ocorre depois de Fachin se reunir com, grupo de juristas pró-Lula

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Edson Fachin, vai receber um grupo de 12 advogados de movimentos...
Publicidadespot_img

More Articles Like This

Publicidadespot_img