QUEIMADAS: A região da Chapada dos Veadeiros está sendo devastada por incêndios há mais de 16 dias. Polícia abriu 5 inquéritos para investigar as queimadas na reserva. 4 tiveram a autoria identificada.

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Julio Cesar
Redator e Designer do Foco no Fato. Profissional de Marketing formado pelo Uninorte-AM.

Os incêndios florestais, que assolam a Chapada dos Veadeiros há 16 dias, estão sob investigação policial. Dos oito focos identificados pelas equipes de combate ao fogo, cinco resultaram em inquéritos abertos na Polícia Civil de Alto Paraíso (GO). Segundo a delegada responsável, Bárbara Buttini, quatro dos casos tiveram reconhecimento de autoria — sendo dois dolosos e dois culposos. As apurações continuam. Enquanto isso, equipes da força-tarefa atuam no controle das chamas em três locais da região. Em meio à pandemia da covid-19, três bombeiros militares de Goiás testaram positivo para a doença e foram afastados. Na última terça-feira, uma brigadista caiu e se machucou. Ela foi encaminhada ao hospital de Goiânia. A profissional teve alta nessa quarta-feira (22/9) e está bem.

Segundo estimativas do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMbio), até terça-feira, 23 mil hectares de vegetação foram queimadas na região — sendo cinco mil dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e 18 mil nas imediações. O coordenador de Prevenção e Combate a Incêndios do ICMbio, João Morita, ressalta que essa queima é uma das maiores registradas na história. Ultrapassa as ocorrências dos últimos três anos. De acordo com ele, a proporção atinge níveis próximos do que ocorreu nos anos de 2010 e 2017.

Ação humana

Para melhor apurar as condições que provocaram os incêndios na região, uma equipe de perícia policial de Goiânia deve desembarcar, nesta quinta-feira (23/9), na Chapada dos Veadeiros. Os laudos vão embasar os inquéritos da Polícia Civil e dar suporte técnico para as sanções a serem aplicadas. Os inquéritos abertos representam cinco áreas de queima nos últimos dias: a fazenda da Cascata — com maior área devastada, 10 mil hectares —, o Vale Azul, o Vale da Lua, uma mata próxima a São Bento e outra perto do município de São Jorge. Outros pontos são atingidos pelas labaredas, com menor proporção.

A polícia goiana confirmou que dois incêndios se deram por acidente. “São várias causas, cada uma diversa da outra, por isso que está tão difícil. Não tem um denominador comum”, pontuou a delegada Bárbara Buttini. Na terça-feira, o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, Alexandre Lourenço, determinou prioridade nas apurações pela gravidade.

No Vale da Lua o rastro do fogo toma conta do cenário turístico. As pedras esculpidas pela água, características do local, ficaram cobertas de fuligem. Boa parte da vegetação foi consumida pelas chamas. Socorrista e morador local, Josimar da Silva Rodrigues, 50 anos, avalia a grande perda na flora. “Muitas plantas não vão se recuperar mais, teve várias bromélias que estão com as raízes queimadas que morreram, além de cactos, aroeira e uma outra espécie que costumamos chamar de ‘dormideira’”, lamenta Josimar.

O incêndio em uma das principais atrações turísticas da Chapada começou em 12 de setembro. O socorrista Santiago Teles da Silva, 27, estava no dia do inicio das chamas. “Era, cerca de, 10h20 quando o fogo começou na trilha, no momento, tinha cerca de 60 pessoas aqui, tomando banho”, relata. De acordo com Santiago, os primeiros a chegarem ao local foram dez brigadistas voluntários de São Jorge, que auxiliaram a equipe da propriedade privada a conduzir os visitantes para uma área segura. O Corpo de Bombeiros chegou ao local, a estimativa é de que três hectares foram queimados.

Equipe

Ao todo, 170 pessoas estão mobilizadas nos trabalhos de combate aos incêndios na Chapada dos Veadeiros. Entre as equipes atuando in loco estão brigadistas do ICMbio, do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), brigadas voluntárias e militares do Corpo de Bombeiros do Goiás e do DF.

Para auxiliar no trabalho de controle das chamas, três aviões do modelo air tractor, com capacidades de dois a três mil litros de água, são utilizados. As aeronaves são uma peça importante de atuação, principalmente em pontos de difícil acesso.

Desafios

Os bombeiros também lidam com o desafio do novo coronavírus. Até terça-feira, dois brigadistas do Corpo de Bombeiros de Goiás testaram positivo para a covid-19. Após a confirmação dos casos, os demais membros da tropa foram testados e houve mais um diagnosticado com a infecção. Os três militares foram afastados para aguardar em repouso. Segundo o capitão Dias, do CBMGO, eles tiveram sintomas leves. “Quem teve o resultado negativo vai continuar no combate ao fogo”, afirma.

Uma brigadista do ICMbio se feriu, na última terça-feira, ao combater um incêndio na região do Poço Encantado, na Chapada. De acordo com o Instituto, ela escorregou e rolou por aproximadamente um metro e meio. Colegas que estavam no local fizeram o resgate. A princípio, houve suspeita de fratura na bacia e joelho, mas foi descartada pelos médicos. A mulher foi transportada pela equipe do CBMGO para o Hospital Estadual de Urgências da Região Noroeste de Goiânia (Hugol). Ela recebeu alta e está em casa.

Voluntários

Além da equipe especializada dos bombeiros do DF e de Goiás, ICMBio e Prevfogo, a Chapada conta com voluntários no combate às chamas. Amilton Sá, 41, é coordenador executivo da Rede Contra Fogo de Alto Paraíso de Goiás. Nessa quarta-feira, às 18 horas, o grupo iria a São João da Aliança auxiliar no combate ao fogo nas proximidades da GO-236. “O nosso grupo faz combate direto com as chamas, mas sob orientação dos órgãos oficiais. Ao menos 50 voluntários estão rotineiramente no combate, além de cerca de 20 pessoas que atuam como suporte, levando mantimentos e água para a equipe”, explica.

A Rede Contra Fogo surgiu em 2017, quando a Chapada dos Veadeiros enfrentou um dos piores incêndios de sua história. Para Amilton, o principal desafio enfrentado é a falta de veículos. “Não temos viatura própria nem condição de manter o custo de manutenção de um veículo. Muitos lugares têm acesso difícil e precisam de um carro 4×4”. O coordenador de voluntários destaca que a comunidade sofre com os danos na natureza. “Os moradores estão expostos a essa situação estressante, respirando fumaça, e enfrentando uma série de desafios todos os dias”, pontua.

Marcello Nissen, 36, proprietário da Cachoeira do Label, vive na Chapada desde a infância. “Nosso plano é impedir o avanço do fogo por esse acesso da GO 236. Pelo mapa, conseguimos definir esse ponto estratégico e temos uma força tarefa de duas equipes de 8 profissionais e cerca de 20 voluntários. Mobilizamos caminhão pipa, separamos água e alimento para o combate de hoje (ontem). Se formos bem sucedidos conseguiremos preservar mais de 100 km em linha reta da Serra do Paranã entre o Label e o Itiquira”, pontua. Marcello explica que participar desse movimento para salvar a natureza envolve um misto de emoções. “A comunidade se junta, todos pela mesma causa, com camaradagem e formulando estratégias. A parceria entre todo mundo é imensa”, conta.

Fonte: Correio Braziliense

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