MARIA DO CARMO: A “NOVA POLÍTICA” COM SOBRENOME, ALIANÇAS E PRÁTICAS DO PASSADO

Candidata tenta vender renovação, mas carrega vínculos familiares com a política tradicional, já integrou chapa tucana, é apadrinhada por Valdemar da Costa Neto e acumula promessas empresariais ainda sem conclusão

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Maria do Carmo Seffair chega à eleição vestida com a embalagem cuidadosamente produzida da “nova política”. Diante das câmeras, fala em renovação, promete combater velhas práticas e apresenta sua candidatura como uma ruptura com os grupos que governam o Amazonas há décadas.

O problema é que, quando o discurso sai do estúdio e encontra os fatos, a imagem construída pela campanha começa a desmoronar.

A candidata que tenta convencer o eleitor de que representa uma novidade não surgiu agora na política, não está distante das famílias tradicionais do poder e tampouco pode ser apresentada como alguém sem relações com os grupos que critica.

Seu nome completo é Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque. Na urna, porém, ela aparece simplesmente como “Professora Maria do Carmo”. A escolha eleitoral é permitida pela legislação, mas o desaparecimento dos sobrenomes familiares da comunicação de campanha chama atenção justamente porque contrasta com a narrativa de independência política.

Maria do Carmo é casada com o empresário Wellington Lins de Albuquerque, presidente do Grupo Fametro e irmão do deputado federal Átila Lins, um dos políticos mais longevos do Amazonas.

Átila está novamente no centro de uma grande aliança eleitoral, desta vez compondo o grupo que sustenta a candidatura de Omar Aziz ao Governo do Estado. Na prática, enquanto Maria do Carmo tenta se apresentar como adversária dos chamados “caciques”, sua própria família mantém relações diretas com uma das principais estruturas da política tradicional amazonense.

Isso não significa responsabilizá-la pelas escolhas políticas dos parentes. Significa apenas confrontar a propaganda com a realidade: a candidata que promete romper com os velhos grupos está familiar e historicamente muito mais próxima deles do que seu discurso deixa transparecer.

Antes de chegar ao PL e assumir uma identidade conservadora, Maria do Carmo já havia participado da eleição de 2022 como primeira suplente de Arthur Virgílio Neto na disputa pelo Senado. Sua trajetória eleitoral, portanto, passou pelo PSDB antes de encontrar espaço no partido de Jair Bolsonaro.

A suposta novidade já circulava pelos corredores conhecidos da política amazonense.

A história empresarial e pública da família também possui capítulos que merecem ser conhecidos pelo eleitor.

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 20 de outubro de 1997 apresentou acusações e controvérsias envolvendo Wellington Lins, então nomeado para a direção do DNER no Amazonas. O texto jornalístico mencionava processos, pendências no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal e uma prisão preventiva decretada por estelionato.

Tratam-se de registros históricos que precisam ser apresentados com a devida atribuição, sem antecipação de culpa e sem confundir acusações daquela época com uma condenação definitiva. Ainda assim, são fatos relevantes diante de uma campanha que pretende transformar a própria família em símbolo absoluto de eficiência, renovação e superioridade moral.

A “nova política” vendida pela propaganda não pode escolher apenas os capítulos convenientes de sua biografia.

Outra contradição aparece quando o discurso ideológico é comparado ao modelo de expansão do Grupo Fametro.

A instituição participa de programas federais como o Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies, e o Programa Universidade para Todos, o Prouni, políticas públicas criadas ou ampliadas durante governos do PT e responsáveis por transferir recursos ou garantir receitas às instituições privadas de ensino participantes.

Não existe irregularidade em aderir a esses programas. Pelo contrário: são instrumentos legais de acesso à educação superior. A incoerência política está em atacar genericamente tudo aquilo que foi construído por governos adversários enquanto o próprio grupo empresarial se beneficia de políticas educacionais financiadas pelo poder público.

Na política, Maria do Carmo combate o campo petista. Nos negócios, a Fametro não recusou os programas criados e fortalecidos por esse mesmo campo.

O problema não é utilizar o Fies ou o Prouni. O problema é esconder essa relação enquanto se tenta convencer o eleitor de que toda política proveniente do adversário é necessariamente inútil ou nociva.

A evolução patrimonial declarada pela candidata também impressiona.

Em 2022, quando concorreu como primeira suplente de Arthur Virgílio Neto, Maria do Carmo informou à Justiça Eleitoral possuir aproximadamente R$ 14,7 milhões em bens. Em 2024, na condição de candidata a vice-prefeita de Manaus, a declaração chegou a R$ 90,2 milhões.

Agora, em 2026, o patrimônio declarado alcança R$ 118,47 milhões.

O crescimento nominal entre 2022 e 2026 supera 700%. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, Maria do Carmo aparece como a segunda candidata a governador mais rica do Brasil. A evolução decorre, principalmente, de créditos contra pessoa jurídica e de participações em empresas do setor educacional. A candidata e os demais citados pelo levantamento afirmaram que os valores têm origem em investimentos privados e foram declarados conforme as regras eleitorais.

O crescimento patrimonial, por si só, não representa irregularidade. Mas impõe uma pergunta política inevitável: a extraordinária capacidade de expansão demonstrada nos negócios também aparece nos empreendimentos apresentados à sociedade como símbolos de sua competência administrativa?

Até agora, pelo menos dois exemplos importantes recomendam cautela.

Em novembro de 2019, a Fametro arrematou a Santa Casa de Misericórdia de Manaus por R$ 9,3 milhões. Naquele momento, a própria instituição anunciou que o hospital universitário deveria ser implantado até o final de 2020. ⁠

O prazo passou e a unidade não foi entregue.

Novas previsões foram apresentadas ao longo dos anos, mas a restauração continua sem a conclusão originalmente prometida. A demora não pode ser ignorada porque Maria do Carmo coloca justamente sua experiência como empresária e gestora privada no centro de sua candidatura.

Se a eficiência empresarial é utilizada como credencial para governar o Amazonas, os atrasos dos projetos comandados pelo grupo também precisam entrar nessa avaliação.

Não é coerente pedir ao eleitor um mandato de quatro anos para administrar todo o Estado sem explicar satisfatoriamente por que uma obra anunciada para 2020 atravessou sucessivos calendários sem ser entregue.

O Hotel Tropical é outro símbolo dessa distância entre anúncio e execução.

Adquirido pelo Grupo Fametro em 2020 por aproximadamente R$ 91 milhões, o empreendimento recebeu anúncios de investimentos que chegaram a R$ 250 milhões. Em 2024, o próprio grupo divulgou que a inauguração ocorreria durante a festa de réveillon daquele ano.

Mais uma vez, a previsão não se confirmou como anunciada.

Projetos dessa dimensão podem enfrentar dificuldades técnicas, burocráticas e financeiras. Isso é compreensível. O que não pode ser normalizado é a repetição de datas, anúncios grandiosos e promessas frustradas por alguém que pretende convencer o eleitor de que sua experiência privada representa garantia automática de eficiência pública.

Maria do Carmo tem todo o direito de apresentar suas propostas, defender sua trajetória empresarial e disputar o Governo do Amazonas. Mas não pode exigir que o eleitor aceite uma biografia editada pela publicidade.

A candidata que critica a velha política é ligada familiarmente a um dos sobrenomes mais antigos do poder amazonense. A empresária que combate seus adversários ideológicos administra um grupo beneficiado por programas federais criados ou ampliados por esses mesmos adversários. A gestora que promete eficiência acumula empreendimentos históricos cujos prazos de entrega foram sucessivamente adiados.

E a candidata que se apresenta simplesmente como “Professora Maria do Carmo” possui um nome completo que sua campanha aparentemente prefere manter longe dos holofotes: Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque.

A questão central não é o tamanho de seu patrimônio, o sobrenome que carrega ou a atividade empresarial de sua família. A questão é a distância entre aquilo que Maria do Carmo diz representar e aquilo que sua própria trajetória revela.

A “nova política” prometida pela candidata parece, até aqui, muito mais uma estratégia de marketing do que uma ruptura verdadeira.

Quando a maquiagem eleitoral é retirada, o que aparece não é exatamente o novo.

É a velha política com nova embalagem.

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