Armadores anunciam cobranças que chegam a US$ 5.750 por contêiner; escalada dos valores acende alerta na indústria e reforça suspeitas de exploração comercial da estiagem
“TAXA DA SECA” DISPARA E AMEAÇA ENCARECER PRODUTOS, FRETES E PRODUÇÃO NO AMAZONAS

A proximidade do período de vazante dos rios voltou a servir de justificativa para uma pesada escalada no custo do transporte marítimo destinado a Manaus. Informativo do setor de logística revela que grandes armadores já anunciaram a aplicação da chamada Low Water Surcharge (LWS), conhecida no Amazonas como “Taxa da Seca”, com cobranças que podem alcançar impressionantes US$ 5.750 por contêiner refrigerado.
Os valores previstos por Maersk, CMA-CGM, MSC, Hapag-Lloyd e ONE entram em vigor entre os dias 5 de setembro e 4 de outubro de 2026. A velocidade e a dimensão dos aumentos colocaram em alerta empresas do Polo Industrial de Manaus, importadores, comerciantes e toda a cadeia produtiva estadual.
O caso mais expressivo aparece nos comunicados da MSC. A companhia começa cobrando US$ 1.400 por contêiner de carga seca e US$ 1.900 por refrigerado, mas prevê elevar os valores, a partir de 4 de outubro, para US$ 4.800 e US$ 5.750, respectivamente.
Isso representa aumento de aproximadamente 243% para cargas secas e de 203% para contêineres refrigerados.
A CMA-CGM também anunciou duas etapas de cobrança. A sobretaxa começa em US$ 753 por TEU, no dia 6 de setembro, e salta para US$ 2.315 por TEU em 2 de outubro — uma alta superior a 207% em menos de um mês.
A Maersk informou cobrança de US$ 4.646 por contêiner seco, com vigência a partir de 25 de setembro. A ONE fixou sua taxa em US$ 4.592 por contêiner, válida a partir de 1º de outubro, enquanto a Hapag-Lloyd anunciou US$ 1.350 por contêiner desde 12 de setembro.
A adoção da LWS costuma ser justificada pelas dificuldades de navegação durante a vazante, quando a redução do nível dos rios pode limitar a capacidade de carga das embarcações. O que provoca indignação, porém, é a falta de transparência sobre a composição dos valores e as diferenças expressivas entre as cobranças anunciadas pelos próprios armadores.
Se todos enfrentam as mesmas condições naturais para chegar a Manaus, por que algumas empresas cobram pouco mais de US$ 1 mil enquanto outras exigem quase US$ 5 mil pelo transporte de um contêiner seco?
Essa disparidade fortalece os questionamentos apresentados à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e levanta a suspeita de que a estiagem possa estar sendo usada como oportunidade comercial para promover uma elevação antecipada e desproporcional dos fretes.
A documentação não comprova, isoladamente, a existência de combinação entre as empresas ou aumento artificial dos preços. Entretanto, apresenta elementos suficientes para exigir investigação, transparência e fiscalização rigorosa por parte das autoridades competentes.
O impacto da “Taxa da Seca” não ficará restrito aos contratos entre indústrias, importadores e transportadoras. O custo adicional tende a ser incorporado ao preço das matérias-primas, dos alimentos, dos medicamentos, dos equipamentos e dos produtos vendidos ao consumidor amazonense.
Além de pressionar a inflação, a cobrança ameaça reduzir a competitividade do Polo Industrial de Manaus, que já enfrenta o custo logístico imposto pela distância dos principais mercados nacionais e internacionais.
O Amazonas não pode aceitar que um fenômeno natural e previsível seja transformado anualmente em justificativa automática para cobranças milionárias. Cabe à Antaq verificar se os valores correspondem efetivamente aos custos adicionais da operação, exigir memória de cálculo dos armadores e impedir qualquer tentativa de exploração abusiva da vulnerabilidade logística regional.
Sem fiscalização e transparência, a “Taxa da Seca” corre o risco de deixar de ser uma medida excepcional de navegação para se transformar em um verdadeiro pedágio privado cobrado da economia amazonense










