Manaus se aproxima de 200 mortes no trânsito em apenas nove meses

Especialista defende políticas públicas para diminuir número

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O trânsito de Manaus encerra o terceiro trimestre de 2026 mantendo um cenário de alerta máximo e reforçando a necessidade de medidas imediatas para a preservação de vidas. Dados consolidados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) apontam que 197 pessoas perderam a vida em sinistros de trânsito entre janeiro e setembro, contra 181 mortes registradas no mesmo período de 2025 — um crescimento de 8,84%.

Os números revelam uma realidade que vai muito além das estatísticas. São 197 vidas interrompidas e centenas de famílias atingidas por perdas que, em grande parte, poderiam ser evitadas por meio de prevenção, educação, fiscalização e políticas públicas de segurança viária.

Agosto foi o mês mais letal de 2026

Entre janeiro e setembro, Manaus registrou 21 mortes em janeiro, 21 em fevereiro, 25 em março, 22 em abril, 23 em maio, 16 em junho, 22 em julho, 27 em agosto e 20 em setembro.

O mês de agosto apresentou o maior número de mortes do ano, com 27 vítimas fatais.

Embora alguns meses tenham apresentado redução em relação a 2025, o resultado acumulado demonstra uma tendência preocupante. Janeiro teve aumento de 40%, fevereiro de 50%, março de 13,64%, julho de 10%, agosto de 28,57% e setembro de 25%.

O crescimento da violência viária reforça a necessidade de ações permanentes e integradas. Entre os principais fatores associados aos sinistros estão excesso de velocidade, falta de atenção, consumo de álcool, imprudência e disputas de velocidade.

“Quando uma vida é perdida no trânsito, não perdemos apenas uma pessoa. Uma família inteira é impactada. Por isso, precisamos compreender que cada escolha feita ao volante pode significar a diferença entre chegar em segurança ou não voltar para casa.”, alerta o Professor Mário Ricardo, representante do Observatório Nacional de Segurança Viária no Amazonas.

Motociclistas e colisões estão entre os principais pontos de preocupação

Os dados de janeiro a setembro de 2026 também demonstram a gravidade dos diferentes tipos de sinistros.

As colisões aparecem com 79 vítimas fatais, seguidas pelos atropelamentos, com 53 mortes, quedas de motocicleta, com 35 vítimas, e choques contra objeto fixo, com 23 mortes.

O cenário reforça a necessidade de políticas específicas para motociclistas, pedestres e demais usuários vulneráveis das vias, além de fiscalização e engenharia de tráfego capazes de atuar diretamente nos pontos de maior risco.

Zonas Leste e Norte concentram mais de 55% das mortes

Outro dado que chama atenção é a concentração territorial das fatalidades.

A Zona Leste contabilizou 57 mortes, correspondendo a 28,93% do total, enquanto a Zona Norte registrou 52 mortes, equivalente a 26,40%.

Somadas, as duas regiões concentram 109 das 197 mortes registradas até setembro, representando 55,33% das fatalidades do trânsito de Manaus.

Para o Professor Mário Ricardo, os números indicam a necessidade de estabelecer uma estratégia territorial de prevenção.

“Se sabemos onde as mortes estão acontecendo com maior frequência, precisamos concentrar nessas regiões ações de educação para o trânsito, fiscalização, engenharia viária, sinalização e acompanhamento permanente dos fatores de risco. Segurança viária precisa ser planejada com base em dados”, disse o especialista.

Mais de 27 mil vítimas lesionadas

O problema, entretanto, não se resume às mortes.

Até setembro, o sistema público de saúde do Amazonas já havia registrado mais de 27 mil atendimentos relacionados a vítimas lesionadas em decorrência de sinistros de trânsito, segundo os dados apresentados no levantamento.

Além do sofrimento das vítimas e familiares, os acidentes provocam impactos econômicos e sociais, aumentam a demanda sobre o sistema de saúde e podem deixar sequelas permanentes.

O cenário evidencia que a violência no trânsito deve ser tratada como uma questão de saúde pública, mobilidade urbana e preservação da vida.

Projeção para o final de 2026 acende novo alerta

Mantido o ritmo atual de ocorrências, o cenário projetado para o último trimestre também preocupa.

Se tivermos aproximadamente 61 vidas perdidas no trânsito da capital amazonense no quarto trimestre deste ano comparando com o igual número de vidas perdidas no segundo trimestre de 2026 que foi o menor nos 3 primeiros trimestres analisados, já teremos um aumento significativo em relação ao ano anterior.

Nesse cenário, Manaus poderia encerrar 2026 com aproximadamente 258 mortes no trânsito, representando um crescimento estimado de cerca de 5,3% em relação a 2025. A projeção reforça a urgência de medidas preventivas antes que novas vidas sejam perdidas.

Fórum de debates e novo planejamento para Manaus

Diante desse cenário, o Professor Mário Ricardo defende a realização de um Fórum de Debates sobre Mobilidade Urbana, Multimodalidade e Gestão de Segurança Viária, reunindo poder público, especialistas, instituições, entidades de classe e sociedade civil.

A proposta é promover um amplo debate sobre o futuro da mobilidade em Manaus e contribuir para a construção de um novo Plano Diretor, mais eficiente, humano, consciente e sustentável.

Entre as medidas defendidas estão o fortalecimento da fiscalização integrada, ampliação da fiscalização eletrônica, ações permanentes de educação para o trânsito, melhoria da engenharia de tráfego, participação das empresas, escolas, famílias, igrejas e condomínios e ampliação da comunicação voltada à segurança viária.

Projeto “Me Sinto Seguro” propõe responsabilidade compartilhada

Dentro dessa proposta está o projeto “Me Sinto Seguro”, idealizado pelo Professor Mário Ricardo, que busca ampliar a participação da sociedade na construção de um trânsito mais seguro.

A iniciativa parte de uma premissa simples: a segurança viária não é responsabilidade exclusiva dos órgãos públicos. Famílias, empresas, escolas, instituições religiosas, condomínios, meios de comunicação, condutores, motociclistas, ciclistas e pedestres também fazem parte dessa rede de proteção.

A ideia é transformar segurança no trânsito em uma responsabilidade cotidiana e coletiva.

Visão Zero: nenhuma morte deve ser considerada aceitável

O levantamento reforça ainda o princípio da Visão Zero, segundo o qual nenhuma morte ou lesão grave no trânsito deve ser considerada inevitável ou aceitável.

A proposta é mudar a lógica de atuação: em vez de agir somente depois que o sinistro acontece, é necessário identificar os riscos antecipadamente e trabalhar para impedir que eles resultem em mortes.

“Precisamos sair da cultura de simplesmente contabilizar mortos e feridos e avançar para uma cultura de prevenção. Cada morte precisa ser analisada como um sinal de que alguma coisa falhou e que pode ser corrigida”, afirma Mário Ricardo.

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