Em meio à crise ambiental que sufoca Manaus, ex-candidato a deputado estadual pelo MDB levanta suspeitas de motivação eleitoral para os incêndios florestais, sem que tenham sido apresentadas evidências públicas que sustentem a suposta articulação
Derrotado nas urnas, Matheus Garcia insinua que Flávio Bolsonaro estaria por trás das queimadas no Amazonas

Em uma narrativa que parece misturar os mistérios do Triângulo das Bermudas, os segredos da Área 51 e o famoso ET de Varginha, o ex-candidato a deputado estadual Matheus Garcia (MDB-AM) resolveu levar a disputa presidencial para o meio da fumaça que encobre o Amazonas.
Em vídeo publicado no Instagram, segundo o relato encaminhado ao Foco no Fato, Garcia teria levantado uma hipótese no mínimo controversa: a de que apoiadores do bolsonarismo estariam provocando queimadas na região com o objetivo de prejudicar eleitoralmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição contra Flávio Bolsonaro (PL).
A insinuação, caso confirmada no conteúdo integral da publicação, é grave. Afinal, atribuir a grupos políticos uma possível participação coordenada em incêndios florestais exige algo muito mais consistente do que suspeitas, coincidências ou interpretações eleitorais.
Entre a ficção conspiratória e a realidade ambiental, existe um detalhe fundamental: as provas.
Enquanto a hipótese ganha contornos de roteiro cinematográfico, a população amazonense enfrenta uma emergência que não tem absolutamente nada de fictícia.
A fumaça é real. A crise também.
O Amazonas enfrenta uma das situações ambientais mais preocupantes deste período de estiagem. Em 10 de outubro, o Governo do Estado publicou o Decreto nº 55.751, declarando situação de emergência em 36 municípios afetados por incêndios florestais, agravados pelas condições climáticas associadas ao fenômeno El Niño. 
Em Manaus, a fumaça tem comprometido a qualidade do ar e alterado a rotina da população. Na segunda-feira (19), aulas presenciais das redes municipal e estadual foram suspensas para reduzir a exposição dos estudantes à poluição. 
O próprio decreto estadual apresenta uma série de explicações técnicas para o agravamento da crise: estiagem severa, temperaturas elevadas, redução das chuvas e condições favoráveis à propagação dos incêndios.
Nenhum desses fatores, evidentemente, impede que existam queimadas criminosas, que devem ser investigadas e punidas. Mas existe uma diferença gigantesca entre investigar possíveis crimes ambientais e sugerir, sem provas, uma operação política organizada para interferir no resultado de uma eleição presidencial.
E Lula, onde está?
Enquanto aliados políticos procuram possíveis culpados na oposição, outra questão merece atenção: a ausência de Lula em Manaus durante a campanha eleitoral.
O presidente chegou a ter uma visita prevista para 28 de setembro, mas a agenda foi cancelada, sem confirmação de uma nova data. Já em 19 de outubro, enquanto Flávio Bolsonaro participava de um ato político na capital amazonense, Lula cumpria compromissos eleitorais em Porto Alegre. 
Até o momento, não foi identificada visita de campanha de Lula a Manaus neste período eleitoral.
Quando a disputa eleitoral tenta explicar até a fumaça
A manifestação atribuída a Matheus Garcia ganha um ingrediente adicional: o ex-candidato declarou publicamente apoio à reeleição de Lula no segundo turno, após receber mais de 21 mil votos e não conseguir uma cadeira na Assembleia Legislativa do Amazonas.

O posicionamento político é legítimo. O que merece questionamento é a tentativa de transformar uma tragédia ambiental em argumento eleitoral sem apresentar elementos concretos que permitam sustentar uma acusação dessa gravidade.
Se existem indícios de que apoiadores de Flávio Bolsonaro estejam provocando incêndios deliberadamente, o caminho responsável seria apresentar essas informações às autoridades competentes.
Caso contrário, a discussão corre o risco de abandonar o campo dos fatos e ingressar definitivamente no universo das teorias conspiratórias.
E, convenhamos, o Amazonas já tem problemas suficientes para resolver sem precisar procurar extraterrestres, sociedades secretas ou conspirações eleitorais por trás de cada nuvem de fumaça.
A floresta precisa de fiscalização, prevenção e combate aos incêndios. A população precisa respirar. E o debate público precisa de provas, não de roteiros de ficção científica.










