GOLPE DE ESTADO: Militares liderados por Mamady Doumbouya, prendem presidente e dissolvem a constituição de Guiné na África ocidental.

Em 2016, Mamady Doumbouya, comandante do exército guineense, perguntou a seus superiores se ele poderia ter munição para treinar suas tropas no tiro ao alvo. Ele nunca recebeu, disse ele, porque temiam que ele usasse as balas para lançar um golpe. Cinco anos depois, Doumbouya fez exatamente isso. No domingo (5), após horas de tiroteio …

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Em 2016, Mamady Doumbouya, comandante do exército guineense, perguntou a seus superiores se ele poderia ter munição para treinar suas tropas no tiro ao alvo. Ele nunca recebeu, disse ele, porque temiam que ele usasse as balas para lançar um golpe.

Cinco anos depois, Doumbouya fez exatamente isso.

No domingo (5), após horas de tiroteio na capital Conacri, o homem de 41 anos apareceu em um vídeo online com uniformes do exército e óculos de sol para declarar a destituição do presidente Alpha Conde e a dissolução do governo.

“Apelamos aos nossos irmãos de armas para que se unam para responder às legítimas aspirações do povo da Guiné”, disse ele à televisão estatal, com a bandeira da Guiné pendurada nos ombros.

Citando o ex-presidente de Gana Jerry Rawlings, que assumiu o poder duas vezes, Doumbouya disse: “Se o povo for esmagado por suas elites, cabe ao exército dar ao povo sua liberdade”.

O poder das instituições da Guiné, sua economia, sua democracia, devem ser restaurados, disse ele. Suas palavras podem ter apelado a um setor da sociedade que não viu nada da riqueza da extração dos recursos naturais do país e que protestou contra a candidatura de Conde a um terceiro mandato no ano passado – uma ação que muitos consideraram ilegal.

Os motivos exatos de Doumbouya ainda não são claros – analistas de segurança dizem que ele já foi um aliado próximo de Conde. O golpe foi condenado pelos Estados Unidos, pelas Nações Unidas e por organismos regionais africanos.

Ele não esboçou um plano para realizar eleições democráticas ou estabelecer um governo de transição, como outros líderes do golpe fizeram na África Ocidental e Central nos últimos meses. Na segunda-feira (6), ele proibiu as viagens de governantes e ameaçou quem não compareceu à reunião para a qual ele os convocou.

“PEDI MUNIÇÃO”

No entanto, um discurso feito em 2017 em uma conferência organizada pelas Forças Armadas da França dá uma pista do caráter do novo líder inesperado do país.

“Eu pedi munição no ano passado (2016) … mas nunca a recebi”, disse Doumbouya no discurso, que foi publicado ao lado de outros no site da EMSOME, uma seção das forças armadas francesas especializada em missões no exterior.

“Por outro lado, os franceses que vierem treinar para nós receberão de imediato tudo o que precisam”.

O breve discurso revela as frustrações de um soldado politizado que se irritou com sua falta de poder e influência, e o que ele considerava uma escassez de apoio e respeito pelos militares da Guiné.

As tropas francesas e americanas têm maior acesso aos corredores de poder em toda a África do que as forças domésticas, disse ele.

“Nossos governantes preferem confiar neles em vez de nós, e os consideram verdadeiros conselheiros, funções que nunca alcançaremos.”

“Os brancos detêm um poder que é inatingível para nós”, disse ele.

Doumbouya não estava disponível para comentar nesta segunda-feira (6). Os oficiais do Exército não puderam ser encontrados para confirmar seu pedido anterior de munição.

“CALMA SOB PRESSÃO”

Tornou-se uma visão familiar na África Ocidental e Central nos últimos meses: um soldado pouco conhecido, mas experiente, senta-se atrás de uma mesa e diz que está no comando. Eventos na Guiné no domingo (5) seguem-se a duas aquisições no Mali, desde agosto de 2020, e uma no Chade, em abril.

Não se sabe muito sobre o início da vida de Doumbouya. Reportagens da mídia local dizem que ele é um Malinke étnico, como Conde, e vem da região oriental de Kankan.

Segundo biografia divulgada por funcionários da inteligência guineense neste domingo (5), ele tem 15 anos de experiência militar, incluindo missões no Afeganistão, Costa do Marfim, Djibuti e República Centro-Africana.

Ele recebeu treinamento em Israel, Senegal e Gabão, e no War College em Paris. Ele serviu na legião estrangeira francesa. O ministério da defesa francês não quis comentar, citando a “situação atual na Guiné”. Porta-vozes de outros países não puderam confirmar imediatamente esta informação.

Doumbouya foi nomeado chefe de uma unidade de forças especiais criada em 2018 para conter a crescente ameaça de militantes na região. A unidade era considerada a mais bem treinada e equipada da Guiné.

Não está claro até agora que tipo de apoio Doumbouya tem nas forças armadas. Ainda assim, as informações fornecidas pelos funcionários mostram um quadro otimista.

Ele é “capaz de identificar e neutralizar situações de risco mantendo a calma diante de um ambiente hostil e extrema pressão”, disse a biografia.

Fonte: Reuters

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