Todos os que acompanham as COPs, as conferências climáticas das Nações Unidas que já estão na sua vigésima sétima edição, sabem da falta de resultados práticos desses eventos. São verdadeiros happenings, com todo tipo de participante, inclusive autoridades políticas que desejam apenas uma plateia. Há diagnósticos às vezes interessantes, frequentemente esdrúxulos e quase sempre fantasiosos. …
???? Coluna 10 de Senador Plínio Valério | Tema: COP-27: palco para autoridades que desejam plateia

Todos os que acompanham as COPs, as conferências climáticas das Nações Unidas que já estão na sua vigésima sétima edição, sabem da falta de resultados práticos desses eventos. São verdadeiros happenings, com todo tipo de participante, inclusive autoridades políticas que desejam apenas uma plateia. Há diagnósticos às vezes interessantes, frequentemente esdrúxulos e quase sempre fantasiosos.
Fixam-se metas, invariavelmente descumpridas por culpa de quem as propôs. E países ricos colocam outros nem tanto na berlinda, por aceitarem práticas poluentes que eles próprios adotaram e ainda adotam. Sempre paira no ambiente um certo cheiro de hipocrisia, às vezes ostensivo, às vezes subliminar, mas sempre presente.
Raras vezes, porém, essa hipocrisia ficou tão ostensiva quanto a que ocorre nesta vigésima sétima edição, em Sharm el-Sheikh, balneário egípcio para endinheirados. Agora, é só olhar. As provas estão pousadas nos aeródromos desse balneário e de cidades próximas.
Afinal, ambientalistas e autoridades usaram aproximadamente 400 jatinhos particulares para ir à Conferência do Egito. Os próprios militantes pró-clima – não os passageiros desses jatinhos, é claro – dessa vez apontaram a hipocrisia dos ativistas participantes da COP-27. Claro que isso tinha de ocorrer: os jatinhos privados emitem mais gases estufas do que voos comerciais. Isso tudo quando a conferência debate, pela enésima vez, as consequências das mudanças climáticas, em grande parte produzidas pelo homem.
Em resumo, os figurões lá presentes vão cobrar do mundo inteiro que coma mais alface e circule de bicicleta, quando eles mesmos estão poluindo em grande quantidade.
É só fazer as contas. De acordo com o grupo europeu Transporte e Meio Ambiente, a emissão de gases do efeito estufa em aviões particulares é de cinco a 14 vezes maior que a média por viajantes em aviões de carreira. A partir da queima de combustível, a liberação de gases é de duas toneladas. Vamos dar um exemplo concreto.
Um jatinho modelo Gulfstream G650, que serviu para transportar até lá o presidente eleito Lula, gasta para fazer essa viagem cerca de 130 toneladas de dióxido de carbono, o CO2 que mais provoca o efeito estufa. Um detalhe a se lembrar depois é que a aeronave pertence a Júnior Seripieri, ex-dono da Qualicorp e hoje proprietário da QSaúde, uma empresa que faz uso de inteligência de dados para vender planos a preços mais baixos. Ele chegou a ser preso em 2020, fez delação premiada e admitiu crimes eleitorais.
Mas, voltando a nossas contas. O jato usado por Lula emitiu nessa viagem 130 toneladas de dióxido de carbono. Pois há poucas semanas um estudo da Oxfam apontou, como um grande escândalo, que o 1% mais rico – que representa uma população menor que a da Alemanha – está a caminho de liberar 70 toneladas de CO2 por pessoa por ano, caso o consumo atual continue. Tradução: um norte-americano que coma todo tipo de alimento industrializado, que tome refrigerantes, que use aqueles carrões capazes de andar cinco quilômetros com um litro de gasolina, que viaje em avião de carreira, que use ar-condicionado no verão e aquecimento a gás no inverno gelado, gastará 70 toneladas de dióxido de carbono em um ano. Vem a ser a metade do que o jato consumiu para chegar ao Egito.
Até mesmo ativistas mais sinceros e menos comprometidos apontam a falta de coerência no diálogo dos líderes globais, já que a cada edição a COP polui mais, além desta edição ser patrocinada pela Coca-Cola, uma empresa que tem sido questionada pelo uso intensivo de plástico e consumo de água na produção de suas bebidas. É que a cada nova COP cresce muito o número de empresários e lobistas, inclusive das aparentemente rivais indústrias petrolífera e petroquímica, muitas vezes travestidas de diretores de ONGs. Os jatinhos são seus meios normais de transporte.
O evento deste ano caminha para ser o mais poluidor de todos já realizados. Por ora, a última edição – COP26 – em Glasgow, Escócia, lidera o ranking, tendo a maior pegada de qualquer uma das COPs até agora. De fato, a pegada de carbono da COP26 foi considerada em alguns círculos como o dobro da COP25, principalmente devido ao impacto dos voos internacionais feitos por muitos delegados que, embora tenham ficaram sob pressão porque viajaram em jatos particulares, parecer não estar preocupados com isso, já que na COP27 eles repetem a dose.
Entre os que protestam está até mesmo, pasme-se, a ativista sueca Greta Thunberg, uma das mais aclamadas da atualidade. Ela disse que “esses eventos são cheios de blá, blá, blá e não têm agregado para os debates da crise climática”. A jovem não foi à COP27 e também não acredita nos efeitos práticos da conferência que, segundo ela, “estão mais voltados a marketing empresarial do que às preocupações reais com o clima”. Como ela, outros ativistas se declararam contrários, inclusive sugerindo que reuniões poderiam ser feitas pela internet usando plataformas como o Zoom, por exemplo. Mais de 500 manifestantes do Greenpeace e do Extinction Rebellion impediram a saída de jatos particulares do Aeroporto Schiphol, em Amsterdã, no sábado, 5 de novembro, em uma manifestação às vésperas da COP27, sentando-se ao redor e embaixo dos jatos para impedi-los de sair, enquanto outros andavam de bicicleta ao redor das aeronaves. A polícia militar prendeu vários manifestantes por estarem nas dependências do aeroporto sem autorização.
O mais grave de tudo, e o que mais expõe as COPs como festivais de hipocrisia generalizada, é que nada de realmente novo aparece ao final dos happenings. Nada se parece mais com as conclusões de uma CPO do que as conclusões da COP anterior. Basta ver que o esboço de 20 páginas do esperado acordo final da COP27 repete a meta do Pacto Climático de Glasgow, a COP26, de limitar o aquecimento a 1,5°C e saudar o debate sobre o lançamento de um suposto fundo de perdas e danos para países devastados por impactos climáticos. Isso é o que se faz em cada uma das COPs: países pobres querendo que os ricos assumam os gastos para combater a crise climática e nada recebendo de concreto desses países que têm dinheiro e que, quase todos, devastaram seu meio ambiente.
A discussão mencionada na COP27 faz referência, uma vez mais, aos estragos destrutivos da crise do clima que esses países não podem prevenir ou se adaptar com seus atuais recursos. Países vulneráveis ao clima, incluindo pequenas nações insulares, apontaram que, embora o esboço mencione perdas e danos, ele não inclui detalhes para o lançamento de um fundo. Ninguém se prontifica a contribuir. Um fundo sem fundos. Ou seja, nada concreto em termos financeiros. Só mais do mesmo.
Durante anos, os países ricos resistem a um fundo de perdas e danos alegando que isso possa implicar uma responsabilidade financeira sem fim por sua contribuição histórica para a mudança climática. O esboço também repete o pedido do acordo de Glasgow para que os países acelerem as medidas para a redução gradual da energia a carvão. Nada foi feito. Por fim, o texto enfatiza “a importância de unir todos os esforços em todos os níveis para alcançar a meta de temperatura do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais e buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.” É uma proposta de seis anos atrás. Como se sabe, nada rendeu em termos concretos. A não ser a realização de mais seis COPs, festivais com muito lero, muita gastança e zero resultado concreto.
Senador Plínio Valério











