Amazonas registra alta alarmante de violência sexual contra menores em 2026

Números são alarmantes, diz especialista

Compartilhar em:

O número de casos de violência sexual contra menores explodiu no Amazonas no primeiro trimestre deste ano e representa uma alta de aproximadamente 40% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) verificados pelo Foco no site da instituição.

Segundo os dados, em 2025 foram registrados 71 casos em janeiro, 60 em fevereiro e 66 em março, totalizando 197 ocorrências. Já neste ano, foram 76 casos em janeiro, 79 em fevereiro e 121 em março, chegando ao total de 276 registros, o que representa uma alta de cerca de 40%.

Os dados oficiais registrados no ano passado apontaram 1.204 casos, chamando atenção para um número alarmante envolvendo crianças e adolescentes, um dos grupos mais vulneráveis, além de acender um alerta no Poder Público, principalmente nos órgãos responsáveis pela proteção desse público.

Para a especialista em segurança pública, Vlaís Monteiro Pereira, um dos fatores que contribuem para o aumento dos casos é a geografia do estado do Amazonas. Segundo ela, municípios do interior não contam com a presença efetiva do Estado para aplicação da lei.

“O problema tem raízes estruturais profundas que tornam o estado um contexto de risco ampliado: isolamento geográfico. Em comunidades ribeirinhas e municípios do interior, a presença do Estado é mínima. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), embora seja lei, enfrenta graves dificuldades de aplicação em áreas remotas”, disse a especialista.

Ambiente familiar

Vlaís Monteiro Pereira, mestre em segurança pública, cidadania e direitos humanos, alerta que grande parte dos casos ocorre no ambiente familiar, geralmente dentro da casa das vítimas, acendendo um sinal de alerta para uma cultura de violência dentro do próprio lar.

“Dados da FVS-AM apontam que 80,5% dos casos ocorrem em residências e que 49,5% das vítimas sofreram violência mais de uma vez. Isso indica ciclos crônicos de abuso que dependem do silêncio forçado. Perfil de vitimização feminina e precoce: 92,6% das vítimas são do sexo feminino e 55,7% têm entre 10 e 14 anos (dados SINAN, 2020–2024). No relatório Elas Vivem (2026), o Amazonas apresentou o maior percentual de vítimas de violência sexual com 78,4% das vítimas entre 0 e 17 anos, o maior percentual entre todos os estados analisados”, ressaltou.

“Os números são alarmantes”

A especialista chama atenção das autoridades competentes para os altos índices e afirma que são necessárias políticas de saúde pública e de direitos humanos voltadas ao grupo de maior vulnerabilidade social.

“Esses números são gravíssimos e exigem leitura como emergência de saúde pública e de direitos humanos. Entre 2021 e 2023, o Amazonas teve um aumento de 184% nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, passando de 321 para 914 registros — ritmo mais que o dobro da média nacional no mesmo período. A taxa regional da Amazônia Legal atingiu 141,3 casos por 100 mil crianças e adolescentes, superando em 21,4% a média nacional de 116,4. A alta de aproximadamente 40% no início de 2026 representa, portanto, a consolidação de uma tendência de décadas, não um evento isolado”, afirmou.

Ponta do iceberg

De acordo com a especialista, os números oficiais registrados pela SSP-AM podem ser apenas a “ponta do iceberg” de um problema gigantesco que percorre os 62 municípios do estado, tendo em vista a existência das chamadas subnotificações. Ou seja, casos que ocorrem, mas não chegam às autoridades por uma série de fatores, entre eles a ausência do Estado em determinadas regiões, onde sequer é possível registrar ocorrência.

“O aumento real é estrutural. Uma criança de 10 a 14 anos que é vítima de abuso sexual crônico dentro de casa, em um município sem CREAS funcional, sem delegacia especializada e sem acesso à saúde mental, não tem para onde correr. E os dados de 2026 mostram que março foi o pior mês, coincidindo com o retorno às aulas — período historicamente de maior exposição e revelação de abusos”, afirmou.

“Os números que a SSP divulga são a ponta visível de um iceberg. O real volume de crianças vitimizadas no Amazonas é certamente maior. Cada registro representa uma criança real — frequentemente uma menina, frequentemente em sua própria casa, frequentemente violentada por alguém da família ou da confiança familiar. Normalizar esses dados como estatística seria uma violência adicional”, finalizou Vlaís.

Compartilhar em: