Ausência do governador desmontou um cenário em que ele poderia se transformar no alvo preferencial dos adversários
Cidade dá nova aula de estratégia política e deixa adversários “falando sozinhos” no debate da Band

A decisão de Roberto Cidade de não comparecer ao primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Amazonas, realizado pela Band Amazonas neste domingo (9), pode ter provocado críticas dos adversários, mas, sob a ótica da estratégia eleitoral, produziu um efeito bastante diferente: retirou do palco justamente aquele que tinha grandes chances de concentrar boa parte dos ataques da noite.
A justificativa oficial apresentada pela campanha foi jurídica. Segundo a equipe do governador, Cidade decidiu não participar de debates e sabatinas antes de 16 de agosto, data de início oficial da propaganda eleitoral. A campanha informou ainda que pretende participar dos confrontos realizados após esse período.
Mas existe uma leitura política impossível de ser ignorada.
O formato da Band previa justamente momentos de confronto direto entre os candidatos, além de perguntas de jornalistas e eleitores.
Para Cidade, entrar naquele estúdio significaria oferecer aos adversários a oportunidade de colocá-lo no centro do debate.
O próprio Omar Aziz abriu sua participação criticando a ausência do governador, classificando o comparecimento ao debate como um dever de prestação de contas à população. A reação imediata ajuda a demonstrar o quanto Cidade já estava inserido na estratégia discursiva dos adversários mesmo sem estar fisicamente no estúdio.
É justamente aí que aparece o componente estratégico.
Em vez de aceitar entrar em uma arena onde poderia passar boa parte do tempo respondendo a ataques, Cidade simplesmente retirou o principal alvo daquele cenário.
Os adversários ficaram livres para criticá-lo e criticaram, mas sem a possibilidade do confronto direto que poderia transformar o debate em uma espécie de “todos contra Cidade”.
Na política, nem sempre comparecer significa avançar. E nem sempre a ausência representa recuo.
Às vezes, a melhor jogada é simplesmente não entrar no jogo preparado pelo adversário.
Cidade parece ter entendido isso.
A estratégia também revela uma característica que começa a aparecer com frequência na campanha do governador: a tentativa de não permitir que os adversários determinem sua agenda.
Enquanto Omar Aziz, David Almeida e Maria do Carmo precisam disputar entre si espaço, protagonismo e diferenciação, Cidade carrega uma condição particular: é governador e, consequentemente, possui uma exposição permanente decorrente do próprio cargo.
Entrar antecipadamente em um confronto de aproximadamente duas horas poderia significar trocar essa posição por uma noite inteira reagindo aos adversários.
Cidade preferiu não fazer essa troca.
A decisão tem custo político? Evidentemente. Adversários podem explorar a ausência, questionar sua disposição para o confronto e tentar transformar a cadeira vazia em discurso eleitoral.
Mas estratégia política é justamente medir riscos e benefícios.
O episódio da Band reforça uma impressão que começa a ganhar espaço nesta eleição: Roberto Cidade está tentando jogar uma partida diferente daquela proposta pelos seus adversários.
Enquanto uns querem antecipar o confronto, Cidade tenta controlar o relógio.
Enquanto os adversários procuram colocá-lo no centro da roda, ele escolhe quando entrar nela.
E enquanto esperavam o governador no estúdio para confrontá-lo diretamente, encontraram uma cadeira vazia e tiveram de reorganizar suas estratégias.
Cidade poderá e, deverá, ser cobrado quando decidir participar dos próximos debates. A partir de 16 de agosto, conforme anunciou sua própria campanha, o argumento jurídico deixa de existir e chegará o momento do confronto direto.
Até lá, porém, a ausência na Band pode ser interpretada muito menos como improvisação e muito mais como cálculo.
Roberto Cidade não entrou no jogo montado pelos adversários. Preferiu escolher o momento da partida. E, gostem ou não seus concorrentes, continua mostrando que estratégia política também se faz sabendo a hora de entrar em campo e, principalmente, a hora de deixar os adversários jogarem sozinhos.










