Dê uma olhada rápida ao seu redor agora. Na sua carteira, no fundo da sua bolsa ou mochila ou num canto estratégico da sua mesa de trabalho: existe algum objeto que está ali não por utilidade, mas por proteção? Pode ser uma pedra, um santinho dobrado, uma pimentinha de acrílico ou até aquele chaveiro surrado …
Coluna Marcos Coerais 26 I Quem com mandinga não pode, que carregue seus patuás

Dê uma olhada rápida ao seu redor agora. Na sua carteira, no fundo da sua bolsa ou mochila ou num canto estratégico da sua mesa de trabalho: existe algum objeto que está ali não por utilidade, mas por proteção? Pode ser uma pedra, um santinho dobrado, uma pimentinha de acrílico ou até aquele chaveiro surrado que você recusa a trocar.
Independentemente do nome que se dê — amuleto, patuá, talismã, a verdade é que quase todo mundo carrega o seu.
A psicologia costuma olhar para esses hábitos como mecanismos de controle em meio ao caos imprevisível do cotidiano. Em termos simples, quando o mundo externo parece gigante e incerto, um pequeno objeto de ancoragem nos devolve a sensação de segurança e foco. Já a filosofia nos lembra que os símbolos sempre foram a ponte entre o invisível e a nossa psique; eles traduzem intenções em matéria. Sendo um escudo psicológico ou uma canalização de energia, a verdade é uma só: cercar-se de símbolos é uma forma instintiva de nos blindarmos daquilo que muitas vezes nem nós mesmos sabemos identificar.
Confesso que sempre fui supersticioso com várias coisas. Nada que me tire da realidade ou atropele o bom senso, mas aprendi a respeitar e a cultivar esses pequenos rituais do dia a dia.
Desde 2009, por exemplo, estudo a Cabala. Desde essa época, peguei o costume de usar uma pulseira de fio vermelho no pulso esquerdo. Não é uma regra inflexível — não me me sinto “desprotegido” se estiver sem ela —, mas gosto da presença dela. Na tradição cabalística, o lado esquerdo do corpo é por onde recebemos as energias do ambiente, e o fio vermelho funciona como uma espécie de filtro de proteção contra o “olho gordo” e as energias de inveja, reorientando nossa própria intenção para o bem.
Gosto bastante do olho grego. Em qualquer espaço onde eu passe um tempo considerável — seja no meu escritório, no carro ou em casa —, dou um jeito de colocar um. Esse famoso amuleto azul, com raízes milenares na bacia do Mediterrâneo, tem a função de absorver as energias negativas e refletir o olhar invejoso de volta para longe. É um clássico que nunca perde a força (nem o charme).
Tenho também o hábito de vestir roupas claras ou brancas às sextas-feiras. Novamente, não sigo isso como um dogma, nem como uma prática estritamente religiosa. Para mim, virou um ritual pessoal de encerramento de ciclo. Vestir branco no último dia útil é a minha forma de agradecer pela semana que passou — independentemente do caos que, vira e mexe, insiste em acontecer. É um respiro visual e mental. Culturalmente, o uso do branco às sextas tem forte herança nas religiões de matriz africana, associado a Oxalá e ao pedido de paz, ou seja, é um símbolo universal de serenidade e gratidão para receber o fim de semana.
Também tenho a mania cultural e quase automática de fazer o sinal da cruz sempre que entro em um ambiente novo ou piso em um lugar diferente. É algo arraigado na nossa formação ocidental, um gesto de pedido de licença e proteção que ultrapassa a mera frequência à igreja; virou uma reverência ao espaço que nos acolhe. Sem contar meu carinho especial por tudo o que envolve o símbolo da cruz — um dos ícones mais antigos e poderosos da humanidade, que para além do cristianismo representa a união do divino com o humano, o vertical com o horizontal, o equilíbrio do cosmos.
Claro que se eu fosse listar todas as minhas pequenas manias e superstições, esta coluna precisaria de mais umas três páginas. Mas o ponto não é a quantidade de patuás que acumulamos.
No fim das contas, seja um cristal, uma fita no braço, uma oração mental ou aquele seu objeto da sorte, o que realmente importa é a fé e a intenção que depositamos neles. Se o mundo lá fora às vezes parece pesado demais, que a gente nunca perca a capacidade de criar nossos próprios territórios de paz. Se você sente que te faz bem, carregue seus patuás — porque mal nenhum faz sombra para quem anda acompanhado de boa energia.











