Coluna Marcos Coerais 27 | Saudade do Que Não Viveram: O Resgate do Nosso Passado Pela Geração Z

​Por um Apaixonado por Música e Memórias.​Bom, eu estava observando essa garotada ostentando câmeras digitais antigas dos anos 2000 — aquelas Cybershots que a gente encostou no fundo do armário assim que o primeiro smartphone decente surgiu — e não pude deixar de sorrir. É uma cena quase cômica para quem viveu a transição em …

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​Por um Apaixonado por Música e Memórias.
​Bom, eu estava observando essa garotada ostentando câmeras digitais antigas dos anos 2000 — aquelas Cybershots que a gente encostou no fundo do armário assim que o primeiro smartphone decente surgiu — e não pude deixar de sorrir. É uma cena quase cômica para quem viveu a transição em tempo real, mas que carrega uma camada muito mais profunda do que simples “frescura” de época.
​Me peguei lembrando do meu velho Diskman. Cara, que saudade! Eu saía de casa com uma mochila, carregando uns dez CDs de plástico acrílico. Para ouvir música, o ritual era longo: escolher o álbum, abrir o case com cuidado para não arranhar, colocar no aparelho e torcer para o mecanismo anti-shock dar conta do recado enquanto eu andava pela rua. E o detalhe: os fones de ouvido eram sempre com fio, embolando no bolso e exigindo toda uma paciência para desenrolar antes de dar o play. Eu ouvia cada faixa, na ordem exata em que o artista pensou, lendo o encarte. Olhando para trás, chega a ser extremamente nostálgico. Mas vamos ser bem sinceros? O streaming atual é mil vezes melhor e mais prático! Eu gosto demais de música — inclusive, guardo até hoje uma coleção com os mais variados artistas e gêneros em CD —, mas não troco a facilidade de ter milhões de faixas no bolso.
​A mesma coisa aconteceu com a fotografia. Eu vivenciei (ainda criança, claro rsrs) o tempo em que as fotos e vídeos das festas de família eram feitos em câmeras analógicas. A gente tirava 12, 24 ou no máximo 36 fotos no aniversário, sem nem saber como tinham ficado. Depois, vinha a ansiedade: levar o rolo de filme na loja e esperar dias para revelar. Quantas vezes a gente não abria o envelope amarelo e descobria que metade das fotos tinha ficado queimada, desfocada ou com alguém de olho fechado? Mas ter aquelas fotos impressas nas mãos, poder guardar no álbum da família e folhear anos depois tinha um peso afetivo único. Quando vieram as primeiras câmeras digitais, onde a gente podia ver a foto na hora no visor e apagar se ficasse ruim, parecia feitiçaria. Era incrível! E hoje… bom, hoje tudo isso se concentra na palma da nossa mão, dentro do celular.
​Só que essa febre de resgate não parou por aí. Se você reparar ao redor, a garotada ressuscitou uma lista inteira do nosso cotidiano analógico. Os livros impressos de papel ganharam um charme renovado diante do cansaço das telas do Kindle e do iPad; os relógios analógicos com ponteiros voltaram aos pulsos como acessório de estilo contra as notificações invasivas dos smartwatches; e até nas noites do fim de semana, os jogos de tabuleiro e de cartas viraram a grande pedida para reunir os amigos ao redor da mesa, sem telas por perto.
​Mas então, por que raios essa geração que já nasceu com o mundo conectado no Wi-Fi está tão desesperada para vivenciar — ou ao menos tentar simular — como era a vida antigamente?
​A resposta talvez esteja no excesso. A Geração Z cresceu num mundo onde tudo é instantâneo, impecável e infinito. O algoritmo escolhe a música, o filtro deixa a pele perfeita e a foto no celular fica armazenada numa nuvem invisível que ninguém nunca mais revisita. Olhando de hoje, para eles, o nosso passado parece ter tido algo de mágico. Tinha textura, tinha espera, tinha um limite físico. Existia um ritual tangível em segurar um CD, desenrolar o fio do fone, folhear um livro de papel, olhar as fotos impressas no álbum ou esperar o filme revelar que dava valor ao momento.
​O analógico trazia uma presença que o digital, com toda a sua perfeição, acabou soterrando. A garotada não quer voltar a viver na “idade da pedra” sem internet, mas está faminta por pequenos respiros de autenticidade no meio de tanto pixel.
​A verdade é que nós lutamos tanto para transformar a tecnologia em algo perfeito, rápido e sem falhas, que acabamos deixando o cotidiano um pouco asséptico demais. E aí me vem o questionamento: será que no fundo, essa busca dos jovens pelo antigo não é um aviso de que a perfeição tecnológica acabou ficando chata?

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