EDITORIAL | Depois da sessão do STF, libertem Vorcaro: só falta apresentá-lo como a maior vítima

A ironia expõe um problema sério: a defesa das instituições não pode substituir o esclarecimento dos fatos

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Libertem Daniel Vorcaro. Entreguem-lhe um pedido de desculpas e, quem sabe, uma homenagem pelos serviços prestados ao debate sobre a transparência no Brasil.

A provocação é deliberada. Quando uma investigação que alcança relações entre um banqueiro e integrantes do poder se transforma em uma disputa sobre quem deveria investigar quem, o cidadão corre o risco de assistir a uma inversão desconcertante: os fatos perdem espaço, enquanto a defesa das autoridades ocupa o centro do palco.

A sessão do Supremo Tribunal Federal de 15 de setembro expôs esse impasse. A discussão sobre a possibilidade de investigar Alexandre de Moraes, no contexto do caso Banco Master, ocorreu em meio a divergências envolvendo a atuação de André Mendonça.

Para o FOCO, o questionamento é inevitável: onde ficam as respostas que a sociedade espera?

Eventuais irregularidades na investigação precisam ser examinadas. Mas esse exame não pode servir de atalho para deixar sem esclarecimento os fatos investigados. Uma apuração não elimina a necessidade da outra.

Vorcaro tem direito à defesa, à presunção de inocência e a decisões fundamentadas. Os ministros também. Esses direitos, porém, não conferem a ninguém imunidade ao escrutínio. A mesma exigência de rigor deve valer para o empresário, para o investigador e para quem ocupa uma cadeira no Supremo.

O prestígio de uma autoridade não substitui provas. Tampouco constitui motivo suficiente para impedir que suspeitas sejam esclarecidas. Quanto maior o poder, maior deve ser o compromisso com a transparência.

É justamente por isso que a frase “libertem Vorcaro, ele é a maior vítima” funciona como ironia. Levado ao absurdo, um debate concentrado em desqualificar a investigação pode acabar oferecendo ao investigado uma narrativa de perseguição antes que a sociedade receba respostas sobre sua conduta.

O Brasil precisa de esclarecimentos verificáveis, decisões compreensíveis e critérios iguais. Precisa saber o que foi apurado, o que permanece sob suspeita e quais fundamentos sustentam cada decisão.

O Supremo tem uma responsabilidade que ultrapassa seus conflitos internos: demonstrar que a Justiça consegue examinar questões que alcançam o próprio poder com a mesma independência exigida nos demais processos.

Porque a maior vítima de uma Justiça que não consegue explicar suas decisões acaba sendo a confiança do cidadão.

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