Editorial | Fim da escala 6×1: o trabalhador merece descanso, e o Brasil precisa discutir quem paga a conta

Senado aprovou fim da escala 6×1

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O paralelo exige honestidade: a referência de 40 horas semanais não significa uma obrigação nacional de trabalhar cinco dias e folgar dois.

O brasileiro merece trabalhar, ganhar dignamente e ter tempo para viver. Merece acompanhar os filhos, cuidar da saúde, estudar e descansar. Reconhecer isso deveria ser o ponto de partida de qualquer discussão sobre o fim da escala 6×1.

Mas uma mudança dessa dimensão também exige responsabilidade econômica. O trabalhador precisa de mais qualidade de vida, e a empresa precisa de condições para manter empregos e salários. Tratar esses interesses como inimigos é alimentar uma disputa que pouco ajuda quem está dos dois lados do balcão.

Na quarta-feira, 14 de outubro, o Senado aprovou, em dois turnos, a proposta que encerra a escala 6×1, reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e prevê dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial. O texto segue para promulgação. A aprovação, portanto, não significa mudança imediata em todas as escalas.

Diante desse avanço, o debate precisa ir além da comemoração política. Como reorganizar o comércio, os restaurantes, os hotéis e os serviços que funcionam durante toda a semana? Como uma pequena empresa deverá cobrir as horas de atendimento com uma jornada menor por funcionário?

Essas perguntas precisam de respostas concretas. Levantá-las não diminui a importância do descanso. Ajuda a construir uma transição capaz de preservar a conquista.

Nos Estados Unidos, a legislação federal estabelece, como regra geral para empregados abrangidos e não isentos, pagamento de horas extras com adicional mínimo de 50% quando o trabalho ultrapassa 40 horas na semana. Isso não transforma 40 horas em um teto absoluto de trabalho.

Também não existe, nessa lei federal, uma imposição geral de escala 5×2. A FLSA não limita, em regra, a quantidade de dias semanais de trabalho para pessoas a partir de 16 anos. Leis estaduais, contratos e acordos coletivos podem acrescentar proteções. Portanto, afirmar que “nos Estados Unidos ninguém trabalha seis dias” distorce a comparação.

Há outra diferença relevante: a FLSA não exige, de maneira geral, pagamento por férias ou feriados não trabalhados. Esses benefícios podem decorrer de outras normas e das condições de contratação. O sistema americano reúne regras e garantias diferentes das brasileiras; selecionar apenas uma delas produz uma conclusão incompleta.

O paralelo útil com os Estados Unidos deve levar o Brasil a discutir o valor da hora trabalhada, a produtividade e as condições para remunerar melhor.

Produzir mais por hora depende de investimento, tecnologia, qualificação, gestão e infraestrutura. Depende também de enfrentar burocracia e desperdícios que encarecem a atividade econômica. A responsabilidade por essa transformação envolve empresas e poder público.

Reduzir a jornada mantendo o salário aumenta o custo da hora contratada. Isso não permite decretar que haverá desemprego generalizado, assim como não autoriza prometer que toda empresa compensará a mudança automaticamente com maior produtividade. Os resultados dependerão do setor, da organização do trabalho e das condições da transição.

Para uma grande companhia, reorganizar turnos pode ser administrável. Para uma pequena padaria, uma loja de bairro ou um restaurante familiar, a adaptação pode exigir contratações e mudanças importantes no orçamento.

Ao mesmo tempo, o desgaste de quem trabalha seis dias e dispõe de apenas um para resolver toda a própria vida também tem um custo. Esse custo aparece no corpo, no convívio familiar e nas oportunidades de estudar e crescer profissionalmente.

O FOCO defende uma discussão que reconheça essas duas realidades. Mais descanso é um objetivo legítimo. Sua implementação exige negociação, acompanhamento dos efeitos e atenção especial aos pequenos negócios.

Transformar o trabalhador em preguiçoso por desejar uma folga adicional é uma injustiça. Transformar todo empresário preocupado com os custos em explorador é outra.

O Brasil precisa fazer o tempo do trabalhador valer mais com melhores salários, empresas capazes de crescer e espaço para a vida fora do expediente. A responsabilidade da política é construir essas condições e responder pelas consequências de suas decisões.

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