O que deveria exigir explicações, passa a ser tratado como assunto encerrado, perseguição ou simples repetição do passado
Editorial | O Brasil onde o escândalo perde força e a contradição ganha perdão

O maior patrimônio político de Lula talvez seja sua capacidade de sobreviver ao que destruiria a carreira de muitos outros. Sua trajetória atravessou escândalos, prisão, anulação de condenações e retornos ao poder. Para uma parcela do eleitorado, o desgaste parece incorporado ao personagem: a denúncia seguinte encontra uma resistência que já não depende apenas dos fatos, mas da fidelidade construída ao longo de décadas.
Esse é o fenômeno que precisa ser discutido. Quando o escândalo deixa de surpreender, a cobrança perde força. O que deveria exigir explicações passa a ser tratado como assunto encerrado, perseguição ou simples repetição do passado.
A precisão é indispensável: as condenações de Lula na Lava Jato foram anuladas pelo Supremo, que também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no caso do triplex. Não cabe apresentá-las como condenações válidas. Isso, porém, não impede o debate sobre responsabilidade política, escolhas de governo e critérios usados para julgar quem ocupa o poder.
Mensalão, escândalos na Petrobras e denúncias de fraudes no INSS não podem ser amontoados como se fossem um único processo ou provassem automaticamente a culpa pessoal de um presidente. Também não devem desaparecer da discussão pública por conveniência eleitoral. Cada caso exige apuração, identificação dos responsáveis e cobrança proporcional à sua gravidade.
O problema brasileiro começa quando essa exigência muda conforme o beneficiário.
Há quem cobre explicações de Flávio Bolsonaro sobre as suspeitas de “rachadinha” e encontre justificativa para relativizar qualquer denúncia que alcance o próprio campo político. Há também quem faça exatamente o contrário. Nos dois comportamentos, o princípio é substituído pela preferência.
No caso de Flávio, decisões judiciais invalidaram provas, e a denúncia foi rejeitada em 2022 após pedido do próprio Ministério Público. Esses fatos precisam acompanhar qualquer referência ao episódio. O respeito às garantias processuais deve valer para todos, sem impedir perguntas sobre conduta pública e coerência política.
O erro não está em cobrar Flávio. Está em transformar a cobrança em obrigação para uns e inconveniência para outros.
Essa discussão também exige franqueza da direita sobre Jair Bolsonaro. Sua chegada à Presidência rompeu o domínio de forças tradicionais e abriu uma oportunidade de reorganização política. Na avaliação deste editorial, essa oportunidade foi mal aproveitada.
A promessa de transformar indignação em renovação institucional perdeu espaço para conflitos permanentes, personalismo e contradições. A mobilização foi maior que a capacidade de construir um projeto duradouro, capaz de sobreviver ao líder e submeter os próprios aliados aos padrões anunciados.
Por isso, invocar um “legado” não encerra a discussão. Exige demonstrá-lo. Quais práticas foram efetivamente superadas? Quais instituições saíram fortalecidas? Que padrão de responsabilidade passou a valer dentro do próprio grupo?
Um movimento que promete mudar o país precisa aceitar essas perguntas. A comparação com os erros do PT não responde por suas próprias escolhas.
Lula, por sua vez, consolidou uma identidade política que resiste a sucessivas crises. Para seus adversários, isso pode parecer uma força da natureza. Mas essa imagem esconde um risco: tratar uma construção política como destino inevitável.
Nenhum governante deveria alcançar o estágio em que novas denúncias provocam apenas um encolher de ombros. A ausência de surpresa pode revelar cansaço, resignação ou lealdade partidária. Não equivale a uma autorização para governar sem fiscalização.
O país se degrada quando passa a discutir qual grupo merece mais tolerância, em vez de exigir responsabilidade de todos.
O FOCO defende uma régua que permaneça de pé depois da eleição. Cobrar Lula sem blindar Bolsonaro. Questionar Flávio sem relativizar o histórico petista. Respeitar decisões judiciais sem transformá-las em certificados universais de virtude.
Porque o escândalo mais duradouro é a disposição de encontrar uma desculpa quando o acusado está do nosso lado.









