Entre bondades eleitorais, discursos contraditórios e alegações de desconhecimento, entrevista expõe um presidente que precisa responder pelo próprio governo
Editorial | O modo fim de festa do governo Lula foi ativado

Há um momento em que a campanha de quem governa deixa de apresentar resultados e passa a oferecer uma sucessão de novidades para tentar mudar o humor do eleitor. Tudo ganha urgência. As promessas se multiplicam. Posições antigas se tornam flexíveis. Problemas acumulados aparecem como descobertas recentes.
Na avaliação deste editorial, a campanha de Lula entrou nesse modo de fim de festa: muita promoção, bondades apresentadas no momento eleitoral mais conveniente e explicações insuficientes sobre aquilo que deveria ter sido acompanhado durante todo o mandato.
A entrevista concedida à TV Globo, na noite desta quinta-feira, 15 de outubro, tornou essa contradição particularmente visível.
O episódio mais revelador foi a explicação sobre o Bolsa Família. Lula afirmou desconhecer que o benefício estava sem reajuste. A correção foi anunciada apenas 17 dias antes do primeiro turno. 
A declaração exige uma cobrança elementar: como o presidente que coloca o combate à pobreza no centro de sua identidade política desconhecia uma informação tão importante sobre seu principal programa social?
Se não sabia, faltou acompanhamento. Se precisava ser informado pelos ministros, faltou coordenação. Em qualquer dessas hipóteses, a responsabilidade permanece no Palácio do Planalto.
O desconhecimento não pode funcionar como salvo-conduto presidencial. Quem reivindica o mérito pelos benefícios precisa responder também pelas omissões.
E permanece a pergunta que a propaganda não resolve: por que a urgência apareceu tão perto da votação?
A reta final reúne anúncios e propostas de forte apelo popular. Lula mencionou medidas para microempreendedores, energia e gás de cozinha, além de uma proposta em estudo para transporte público gratuito nos fins de semana.
Cada iniciativa deve ser examinada pelo que entrega, por quem alcança e pela maneira como será financiada. O problema começa quando a campanha apresenta anúncio como realização e intenção como benefício garantido.
É nesse sentido que cabe falar em falsas bondades: quando a publicidade oferece uma certeza que a execução ainda precisa demonstrar.
O trabalhador merece saber quando uma medida começa, quais condições terá e quem pagará a conta. Não basta receber uma promessa embalada para o horário eleitoral.
Governar exige planejamento. Uma campanha pode anunciar em segundos aquilo que o Estado levará anos para executar.
Na segurança pública, Lula declarou apoio à redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, uma mudança em relação a posições que havia defendido anteriormente.
Mudar de opinião é legítimo. Mas uma mudança dessa dimensão exige explicação: quais evidências levaram à revisão? Que proposta concreta será defendida? Por que essa posição aparece agora?
Sem essas respostas, o eleitor tem motivos para enxergar conveniência eleitoral onde o candidato pretende apresentar amadurecimento.
Segurança pública é assunto sério demais para depender das necessidades de uma campanha.
Lula assumiu a responsabilidade pela avaliação do governo, mas relacionou suas dificuldades à incapacidade de fazer a população compreender o que foi realizado.
Essa formulação contém um problema: preserva a ideia de que o governo fez o necessário e o eleitor não entendeu.
É possível que a população tenha entendido e considerado insuficiente. É possível que tenha comparado a propaganda com a própria experiência e chegado a uma conclusão diferente da desejada pelo Planalto.
A democracia exige respeito também por esse julgamento. A insatisfação popular não pode ser reduzida a uma deficiência de comunicação.
A entrevista também apresentou afirmações que não resistiram à checagem. O Aos Fatos identificou erros em números de empregos e percentuais do comércio exterior, além de exagero na afirmação de que o governo teria aprovado todas as propostas encaminhadas ao Congresso. A agência também registrou declarações corretas do presidente.
Os erros documentados precisam ser corrigidos. Não é necessário presumir intenção para cobrar precisão de quem ocupa a Presidência.
Quando números incorretos e exageros ajudam a construir uma imagem mais favorável da administração, o debate público perde qualidade. O eleitor precisa de informações verificáveis para julgar o governo.
O modo fim de festa descrito por este editorial é uma postura política: a tentativa de compensar, na velocidade da campanha, aquilo que exige consistência durante o mandato.
Lula tem o direito de disputar a reeleição, defender sua gestão e apresentar propostas. O cidadão tem o mesmo direito de perguntar por que determinadas providências chegaram tão tarde, por que posições mudaram e por que o presidente desconhecia problemas de sua própria administração.
Política social é obrigação pública. Benefício não cria dívida eleitoral. E nenhuma campanha pode exigir gratidão nas urnas como contrapartida por recursos que pertencem à sociedade.
O Brasil merece um presidente que conheça o governo que comanda, explique as decisões que toma e responda pelos resultados que entrega. A propaganda pode tentar encerrar a festa com aplausos. A palavra final pertence ao eleitor.










