Em sabatina na Globo, Lula repete as mesmas promessas dos últimos 30 anos

Lula apresentou como novidade uma agenda que acompanha o PT desde os anos 1990

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A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à TV Globo, na noite desta quinta-feira (27), apresentou ao eleitor brasileiro um discurso bastante conhecido. Candidato a mais um mandato, Lula voltou a recorrer às realizações dos seus primeiros governos, repetiu promessas históricas nas áreas de educação, segurança e combate à fome e transferiu parte da responsabilidade pelos problemas atuais para governos anteriores, estados e Congresso Nacional.

Depois de quase quatro anos novamente no Palácio do Planalto e de décadas ocupando o centro da política brasileira, Lula ainda apresentou como compromissos para o futuro pautas que o Partido dos Trabalhadores defende desde os anos 1990.

O roteiro foi semelhante ao utilizado em campanhas anteriores: referências à pobreza, à fome, à geração de empregos, à ampliação das universidades e à necessidade de fazer a economia crescer. Mudam-se os adversários e o cenário eleitoral, mas permanecem praticamente as mesmas promessas e justificativas.

Questionado sobre educação, Lula preferiu recordar a criação de universidades e institutos federais durante seus governos. Quando confrontado sobre a qualidade da aprendizagem, destacou que a responsabilidade pelo ensino também pertence aos estados.

Na segurança pública, outra área que preocupa diretamente a população, o presidente voltou a defender a PEC da Segurança Pública e argumentou que alguns governadores dificultaram uma atuação mais integrada do Governo Federal.

Ou seja: mesmo estando no quarto ano do terceiro mandato, Lula ainda apresenta propostas de articulação como resposta para problemas que continuam crescendo diante da população.

O combate à fome também reapareceu como uma das principais vitrines. Lula afirmou que retirou o Brasil do mapa da fome duas vezes, repetindo uma das frases mais utilizadas em sua trajetória eleitoral.

A declaração, entretanto, recebeu ressalvas em checagem publicada após a sabatina. Apesar da melhora nos indicadores, ainda existem brasileiros convivendo com insegurança alimentar grave. A mesma verificação apontou imprecisões em dados apresentados pelo presidente sobre crescimento econômico, resultado fiscal e ressarcimento de aposentados prejudicados por descontos indevidos no INSS. Confira a checagem do UOL⁠.

Na economia, Lula disse não estar preocupado com o crescimento da dívida pública em um eventual novo mandato. Sua justificativa é que a expansão da economia reduziria naturalmente a proporção da dívida em relação ao Produto Interno Bruto.

Mais uma vez, o presidente apostou no crescimento como solução, sem detalhar durante a entrevista como pretende equilibrar permanentemente as contas públicas. Segundo a Reuters⁠, Lula afirmou que espera encerrar o ano com superávit primário e sustentou que houve melhora fiscal desde 2023.

O problema é que prometer crescimento, emprego, renda e equilíbrio das contas públicas faz parte do discurso petista há décadas. Após três mandatos e caminhando para disputar um quarto, a pergunta inevitável é: quanto tempo ainda será necessário para que as antigas promessas se transformem em soluções definitivas?

Ao ser questionado sobre as investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o presidente classificou as suspeitas como “ilações” e voltou a atacar a Operação Lava Jato, definida por ele como uma grande mentira montada contra sua família.

Lula assegurou que não interferirá no trabalho da Polícia Federal, mas defendeu a inocência do filho e negou conhecer a lobista Roberta Luchsinger. Uma checagem jornalística mostrou, porém, a existência de registros fotográficos dos dois juntos em 2022.

Sobre Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, seu ex-chefe de gabinete, Lula reconheceu que o antigo auxiliar errou ao receber dinheiro da lobista, mas reproduziu a explicação de que o valor teria sido um empréstimo. Folha de S.Paulo⁠ e UOL⁠ registraram as declarações.

A estratégia também não é nova. Quando confrontado por denúncias ou suspeitas envolvendo pessoas próximas, Lula recorre novamente ao discurso de perseguição política, questiona as investigações e responsabiliza antigos adversários.

O Brasil mudou, mas o discurso continua o mesmo

Lula disputou sua primeira eleição presidencial em 1989. Desde então, construiu uma narrativa baseada no combate à fome, na proteção aos trabalhadores, na expansão da educação e na promessa de crescimento com distribuição de renda.

São temas legítimos e importantes. O que chama atenção, entretanto, é que, 37 anos depois daquela primeira candidatura e após três passagens pelo Palácio do Planalto, o presidente continua prometendo resolver os mesmos problemas.

Na Globo, Lula mostrou experiência, capacidade retórica e disposição para o confronto. O que não conseguiu apresentar com a mesma clareza foi uma agenda verdadeiramente nova para o Brasil.

No final, a entrevista deixou uma sensação conhecida: Lula falou muito sobre aquilo que afirma ter feito, repetiu as justificativas de sempre para aquilo que ainda não resolveu e voltou a prometer um futuro que o brasileiro escuta há mais de três décadas.

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