O mais recente surto de coronavírus na China adiciona mais uma interrogação às perspectivas da já abalada cadeia global de suprimentos, em meio à escassez de materiais básicos e a disparada dos custos de transporte. O diagnóstico de que um funcionário contraiu a doença levou ao fechamento de um terminal que responde por 25% do …
FRETE INFLACIONADO: Surto de Covid na China agrava gargalos na cadeia produtiva e pode gerar inflação em outros países.

O mais recente surto de coronavírus na China adiciona mais uma interrogação às perspectivas da já abalada cadeia global de suprimentos, em meio à escassez de materiais básicos e a disparada dos custos de transporte. O diagnóstico de que um funcionário contraiu a doença levou ao fechamento de um terminal que responde por 25% do fluxo de contêineres no porto de Ningbo-Zhoushan, o terceiro mais movimentado do mundo. Para analistas, o episódio chama atenção para os riscos decorrentes da política chinesa de tolerância zero a casos de covid-19 e deve prolongar as incertezas no comércio internacional, com potencial de exacerbar as dinâmicas inflacionárias.
O fechamento parcial do complexo portuário, há quase duas semanas, provocou um nó no deslocamento marítimo na Ásia. Segundo a consultoria Vessel is Value, pelo menos 80 navios formavam um congestionamento na região na última quinta-feira. Muitas embarcações têm sido desviadas para outras cidades, sobretudo Xangai e Hong Kong.
O impacto mais imediato é o encarecimento dos custos de transporte. O índice Xangai de frete de contêineres (SCFI, na sigla em inglês), que mede os preços das principais rotas saindo da China, avançou a 4.340,18 pontos na semana passada, o maior nível já registrado e mais de 50% acima do patamar do início do ano. “Trata-se de um forte aviso para todo mundo de que a pandemia ainda não acabou”, resume a High Frequency Economics (HFE).
As consequências, no entanto, não estão confinadas aos mares asiáticos. O índice Freightos Baltic, que compila os valores de rotas globais, superou a marca de US$ 10 mil em julho, o que representa um salto de mais de 500% na comparação com o período imediatamente anterior ao advento da pandemia. Nas últimas semanas, o avanço foi puxado pelo encarecimento das rotas da China para a Costa Oeste dos Estados Unidos (US$ 17.500) e China para o norte da Europa, passando pelo Canal de Suez (US$ 14.057).
Ainda não está claro quando as operações no porto serão retomadas. A HFE lembra que, em maio, o fechamento semelhante do porto de YanTian, em Shenzhen, se estendeu por três semanas. “O bloqueio do complexo Ningbo-Zhoushan afeta bastante o comércio a ponto de causar efeitos nas cadeias de abastecimento globais, bem como no setor industrial da China”, avalia a HFE.
Por outro lado, o economista Tommy Wu, da Oxford Economics, entende que os efeitos serão menores que o lockdown anterior, uma vez que o congestionamento de navios parece menor. “O efeito para a economia global pode ser modesto, embora certamente não seja um bom presságio para os embarques de bens de consumo antes da temporada de compras natalinas”, destaca, em entrevista ao Broadcast.
O analista explica que a recente escalada de casos de coronavírus não impulsionou os preços na China, onde produtores costumam ter dificuldades para repassar o aumento dos custos para os consumidores. No entanto, ele pondera que o quadro pode ser diferente no exterior. “Os preços de importação de produtos chineses nos EUA tiveram aumento considerável, 3,7% em julho em relação ao ano anterior”, ressalta.
Analista de renda fixa para Ásia do Julius Baer, Magdalene Teo prevê que o surto contribuirá para a contínua desaceleração da segunda maior economia do planeta. “O impacto no consumo da variante delta e o fechamento parcial do porto parecem ser maiores em agosto do que em julho”, projeta.
Na visão do analista Edward Moya, da Oanda, a principal repercussão do fechamento do porto é a sinalização de que a China está disposta a tomar quaisquer medidas, mesmo as mais extremas, para manter o zerado o número de casos de coronavírus. “Isso significa para o resto do mundo mais interrupções no fornecimento nos próximos meses, o que pode significar mais gargalos e custos mais altos”, destaca.
Surto atrasa recuperação global
Nos últimos dias, a reação do governo ao vírus começou a dar efeito. No dia 23, o país registrou o primeiro dia sem transmissão local desde julho, após o volume diário de infecções atingir o pico no começo de agosto. De qualquer forma, o mercado tem esperado um impacto na atividade neste trimestre. “A reimposição de medidas de distanciamento social mais rígidas resultantes do surto da variante delta pode continuar a atrasar a recuperação total do setor de serviços pelo menos até o quarto trimestre”, prevê o Citi .
Para o restante do mundo, a confluência entre o esfriamento da atividade chinesa e os choques na cadeia produtiva deve conter a retomada global. A IHS Markit, por exemplo, cortou a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global em 2021, de 5,8% a 5,7%, e em 2022, de 4,7% a 4,5%. A instituição citou os gargalos na indústria de transportes, entre eles o fechamento parcial do porto chinês, como fatores que explicam a revisão negativa. “Os cortes de produção relacionados à pandemia no sudeste da Ásia exacerbaram a escassez de insumos e as pressões de custo” avalia.
O cenário pode, inclusive, alimentar as pressões inflacionárias em outros países. O economista-chefe internacional do ING, James Knightley, relata que os principais agentes da indústria dos EUA têm conseguido repassar o aumento dos custos de frete para consumidores. “Embora seja uma boa notícia para a lucratividade, é um fator-chave que poderia manter a inflação mais alta por mais tempo”, argumenta.
Fonte: Agência Estado









