Reclamação levanta pergunta inevitável: a indignação é contra o modelo ou contra o fato de ele não ser mais um dos beneficiados?
Memória curta? Costa e Silva recebeu R$ 500 mil em 2022 e agora acusa Alfredo após ganhar apenas R$ 50 mil

A distribuição do Fundo Eleitoral do PL no Amazonas abriu uma guerra pública dentro do partido. Candidato a deputado federal, o delegado Costa e Silva partiu para o ataque contra o presidente estadual da legenda, Alfredo Nascimento, acusando-o de privilegiar a própria candidatura e aliados na divisão do dinheiro público destinado às campanhas.
Costa e Silva reclama por ter recebido apenas R$ 50 mil, enquanto Alfredo Nascimento e o vereador Sargento Salazar teriam sido contemplados com R$ 3 milhões cada. Revoltado, o delegado classificou a divisão como um “verdadeiro absurdo” e chegou a desafiar Alfredo a devolver os recursos e disputar a eleição em igualdade de condições.
“Vamos devolver para a União o nosso recurso? E competir em igualdade de condições? Se você concordar, me ligue, você tem meu telefone”, declarou Costa e Silva, segundo publicação do Blog do Botelho.
A manifestação é grave e merece explicações da direção do PL. Entretanto, o discurso indignado do delegado esbarra em seu próprio passado eleitoral.
Nas eleições de 2022, Costa e Silva recebeu R$ 500 mil do Fundo Eleitoral para disputar uma vaga de deputado federal. O valor consta em levantamento elaborado a partir dos dados apresentados ao sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral.
Naquela eleição, o PL distribuiu pouco mais de R$ 3 milhões entre seus candidatos a deputado federal no Amazonas. Alberto Neto recebeu R$ 1,026 milhão; Alfredo Nascimento, R$ 1 milhão; e Costa e Silva apareceu logo depois, contemplado com meio milhão de reais.
Naquele momento, Costa e Silva estava entre os candidatos priorizados pela legenda. Não há registro de que tenha recusado o dinheiro, proposto sua devolução à União ou exigido igualdade absoluta entre todos os integrantes da nominata.
Quatro anos depois, relegado a uma cota de R$ 50 mil, apenas 10% do que recebeu na eleição anterior, o delegado descobriu os problemas da concentração dos recursos partidários.
A pergunta é incômoda, mas necessária: Costa e Silva é contra a distribuição desigual do Fundo Eleitoral ou apenas contra uma divisão na qual deixou de ocupar posição privilegiada?
Segundo Costa e Silva, Alfredo Nascimento teria destinado R$ 3 milhões para a própria campanha e outros R$ 3 milhões para Salazar. O delegado sustenta que o presidente estadual estaria fortalecendo financeiramente um aliado para, supostamente, beneficiar-se dos votos da nominata.
Até o momento, porém, essa interpretação representa uma acusação política feita por Costa e Silva. Não foi apresentada decisão da Justiça Eleitoral que reconheça qualquer irregularidade ou apropriação indevida dos recursos.
A direção do PL precisa explicar quais critérios técnicos, políticos e eleitorais justificaram uma diferença tão expressiva. Se os valores estiverem corretamente registrados e respeitarem as regras eleitorais, a discussão poderá ser mais política e moral do que propriamente jurídica.
Ainda assim, a concentração de milhões em poucas campanhas enquanto outros candidatos recebem quantias muito menores alimenta a suspeita de que a nominata possa estar dividida entre escolhidos para vencer e nomes utilizados apenas para completar a chapa.
Costa e Silva tem legitimidade para cobrar transparência e questionar a condução do partido. O problema está na seletividade da indignação.
Quando recebeu R$ 500 mil em 2022, o modelo aparentemente não provocou a mesma revolta. Agora, com R$ 50 mil em caixa, o delegado denuncia desigualdade, favorecimento e concentração de recursos.
Sua manifestação expõe uma crise real dentro do PL, mas também revela uma contradição difícil de esconder: para alguns políticos, o Fundo Eleitoral só parece injusto quando o dinheiro vai parar na campanha dos outros.
No fim das contas, Costa e Silva acusa Alfredo Nascimento de comandar um jogo de cartas marcadas. Mas o histórico mostra que, em 2022, quando estava sentado à mesa dos candidatos favorecidos, o delegado não demonstrou a mesma disposição para virar o baralho.











