Morador em situação de rua morre nas grades da Igreja dos Remédios e escancara abandono do Centro

Manaus amanheceu, neste domingo (20), mais uma vez, com uma cena revoltante e inaceitável: um morador em situação de rua foi encontrado morto, encostado nas grades da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios — no coração do Centro da cidade. A vítima era conhecida por quem vive e trabalha na região central. Um dos muitos …

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Manaus amanheceu, neste domingo (20), mais uma vez, com uma cena revoltante e inaceitável: um morador em situação de rua foi encontrado morto, encostado nas grades da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios — no coração do Centro da cidade.

A vítima era conhecida por quem vive e trabalha na região central. Um dos muitos que, em situação de abandono, sobreviviam nas ruas, muitas vezes recorrendo a pequenos furtos para sustentar vícios.

Segundo relatos, teria entrado na área da igreja para tentar furtar fios — e ali morreu. Sozinho. Ignorado. Sem dignidade.

Essa morte não é um acidente. É o resultado direto da omissão do poder público, da falência da assistência social e do abandono completo de uma região que já foi símbolo de riqueza e respeito.

Hoje, o que se vê é um Centro degradado, esvaziado e ignorado.

As lojas estão fechando. Os comércios históricos, que por décadas sustentaram a economia da cidade, estão baixando suas portas — sufocados pela criminalidade, pela ausência de infraestrutura e por um custo tributário que não faz sentido frente à realidade.

Temos um dos IPTUs mais caros de Manaus — e, em contrapartida, o abandono mais profundo. Ruas sujas, insegurança permanente, fiação exposta, iluminação precária, calçadas esburacadas e zero presença institucional.

Não há justificativa para o que está acontecendo. Não há coerência.

Enquanto os lojistas resistem com dificuldade, os poucos moradores que ainda vivem no Centro estão indo embora. Desistindo. Porque aqui, hoje, já não se vive. Se sobrevive. Transformou-se em um território hostil, sem respeito, sem cuidado, sem resposta.

A área ao redor da Igreja dos Remédios virou uma favela a céu aberto, com pessoas em situação de rua dormindo nas praças e calçadas, cercadas por lixo e abandono. As imagens revelam o colapso social e a omissão do poder público diante da degradação do Centro de Manaus.

E o mais grave: não há presença efetiva da assistência social. Onde estão os profissionais da Prefeitura de Manaus? Os agentes do Governo do Estado? Os Ministério Público Estadual? A Defensoria Pública do Amazonas? E o Tribunal de Justiça do Amazonas?.

Onde estão as ONGs que funcionam no entorno da Igreja dos Remédios, que captam milhões em recursos nacionais e internacionais — inclusive da ONU — prometendo resolver exatamente essa situação?

Todos sabem que esses grupos produzem relatórios, participam de congressos, fazem vídeos, pedem emendas. Mas no chão da realidade, no concreto das calçadas, ninguém aparece. Ninguém age. Ninguém acolhe.

Durante a Belle Époque, Manaus viveu o auge da economia da borracha. O Centro era símbolo de civilidade, progresso e beleza. A Praça dos Remédios era uma referência de cultura. A Igreja dos Remédios, onde hoje se registra uma morte, é uma réplica do Panteão de Roma — e virou símbolo de miséria.

Manaus foi chamada de Paris dos Trópicos. A riqueza gerada aqui, no século passado, ajudou a construir o sul do Brasil. E hoje, ironicamente, a capital da Amazônia está abandonada em seus próprios escombros.

A morte desse homem nas grades da Igreja dos Remédios é mais do que trágica.
É um marco. Um grito. Um sinal de colapso.

Não há justificativa técnica, política, religiosa ou social que explique esse descaso. Não há projeto de emenda, discurso técnico ou relatório bonito que esconda o que está diante de todos. Está escancarado. Está visível. Está gritando.

Manaus precisa reagir. O Centro não pode continuar apodrecendo diante da omissão das autoridades, da indiferença das instituições e da covardia de quem deveria enfrentar o problema.
É hora de parar com a maquiagem. Com a omissão. Com o fingimento.

É hora de agir.
De acolher os invisíveis.

João Carlos
Morador do Centro.

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