A leitura do cenário político do Amazonas e do Brasil exige atenção. Saber quem recebeu mais votos é indispensável. Compreender quais expectativas esses votos carregam é o que permite enxergar além da apuração. O segundo turno amazonense coloca frente a frente Omar Aziz e Maria do Carmo, que receberam, respectivamente, 40,63% e 24,49% dos votos …
Coluna 132 de Marcellus Campêlo | O Amazonas entre dois mapas: o da eleição e o do poder

A leitura do cenário político do Amazonas e do Brasil exige atenção. Saber quem recebeu mais votos é indispensável. Compreender quais expectativas esses votos carregam é o que permite enxergar além da apuração.
O segundo turno amazonense coloca frente a frente Omar Aziz e Maria do Carmo, que receberam, respectivamente, 40,63% e 24,49% dos votos válidos. A distância de 16,14 pontos percentuais constitui uma vantagem relevante, embora a nova etapa permita rearranjos que já estão a pleno vapor em ambos os lados. Nacionalmente, Flávio Bolsonaro e Lula avançaram ao segundo turno, mantendo a polarização no centro da disputa presidencial.
A coincidência entre os campos políticos das duas disputas convida a uma interpretação imediata: o Amazonas reproduz, em escala estadual, o confronto nacional. Essa leitura explica parte do cenário. Minha avaliação, porém, é que ela precisa ser complementada pela compreensão do território, das relações de confiança e das diferentes razões que levam uma pessoa a escolher seus representantes.
O eleitor pode procurar, na Presidência, uma visão de país com a qual se identifica e, no governo estadual, uma liderança em quem confia para administrar problemas próximos. Pode valorizar determinada orientação econômica no plano nacional e, ao mesmo tempo, reconhecer competência em um candidato de outro campo para conduzir o Estado. O voto cruzado pode expressar uma avaliação das responsabilidades de cada cargo.
Por isso, associar automaticamente a votação de um presidenciável à de seu aliado estadual produz uma análise incompleta. A intensidade desse vínculo precisa ser demonstrada pelos resultados e pela evolução da disputa. A identidade ideológica tem força, mas convive com trajetórias pessoais, vínculos comunitários e expectativas de gestão.
No Amazonas, essa convivência ganha características próprias. A divisão entre capital e interior ajuda a organizar a análise, mas está longe de explicar toda a realidade. Uma cidade próxima de Manaus, um município conectado por estrada e uma comunidade cujo deslocamento depende dos rios vivem condições distintas de acesso ao trabalho e aos serviços públicos. O interior precisa ser compreendido em sua diversidade.
Para quem depende de uma viagem longa para conseguir atendimento médico, a presença do poder público tem um significado concreto. O mesmo ocorre com a família que espera água tratada, com o produtor que precisa escoar sua produção e com o jovem que procura formação e emprego sem deixar sua cidade. Essas experiências ajudam a formular uma hipótese que merece investigação: a avaliação política pode estar ligada tanto às convicções do eleitor quanto à maneira como o Estado chega à sua vida.
Minha experiência na Engenharia e na gestão pública me ensinou a observar essa relação com atenção. Uma intervenção ganha sentido quando modifica a rotina das pessoas e continua funcionando. A rede de abastecimento precisa entregar água; a moradia precisa oferecer condições de vida; a infraestrutura precisa permitir acesso. É nessa experiência que a confiança pode se fortalecer — ou se perder.
Isso também ajuda a compreender os limites da transferência de votos, porque grande parte do eleitor, tenho convicção disso, conserva sua autonomia. Quem votou em determinada candidatura pode ter sido movido por identificação pessoal, reconhecimento de trabalho, vínculo local ou rejeição às alternativas.
É notório observar, também, que há uma parte do eleitorado que infelizmente está desprezando o poder que tem em suas mãos através do voto, seja pela indiferença, seja por mercantilizar sua escolha. Por tudo isso, as alianças não conseguem reunir automaticamente todas essas motivações e variáveis do ânimo eleitoral.
Há uma distinção importante entre transferir apoio político, mobilizar uma estrutura e conquistar a confiança de quem votou em outro nome. As três coisas podem se combinar, mas sua eficácia precisa ser observada.
Outro componente merece espaço: a participação. No Amazonas, as distâncias tornam especialmente importante examinar a participação por município e as condições de deslocamento. Esse tema exige dados, porque impressões sobre mobilização ou abstenção podem levar a conclusões equivocadas.
Enquanto essas disputas ocupam a atenção pública, o mapa do poder para 2027 já está sendo desenhado pela composição das casas legislativas e pelas articulações entre governos. O próximo presidente e o próximo governador precisarão negociar prioridades, recursos e decisões com representantes que também receberam legitimidade das urnas.
Para o Amazonas, essa relação envolve questões decisivas, como a defesa da Zona Franca de Manaus, a infraestrutura, o saneamento, a segurança, a conectividade e as oportunidades econômicas no interior. A capacidade de articulação federativa será parte da capacidade de governar. Nesse ambiente, maturidade política significa construir entendimento em torno dos interesses do Estado, preservando diferenças e cobrando compromissos.
Existe ainda uma distância que o debate precisa enfrentar: aquela entre a importância atribuída à Amazônia nos discursos nacionais e a qualidade dos serviços oferecidos a quem vive aqui. Essa distância deve ser medida por orçamento, execução e resultados. Uma agenda consistente para a região precisa responder às necessidades de sua população e apresentar caminhos viáveis para o desenvolvimento.
O segundo turno oferece a oportunidade de aprofundar essas discussões. Experiência, renovação, identidade política e confiança continuarão presentes. Mas os candidatos também precisam explicar como pretendem financiar suas propostas, organizar a administração e entregar resultados em um território de tamanha complexidade.
Ao final, os dois mapas precisarão se encontrar. O mapa eleitoral mostrará quem recebeu autorização para governar. O mapa do poder revelará os instrumentos disponíveis para cumprir essa responsabilidade. A qualidade da política será medida pela capacidade de transformar essa autorização em serviços, oportunidades e melhorias que a população possa reconhecer no seu cotidiano. Nesse sentido, são necessários experiência, vontade e grupo unido em torno do ideal.
Marcellus Campêlo é engenheiro civil, especialista em Saneamento Básico e em Governança e Inovação Pública; ocupa, atualmente, a segunda vice-presidência do União Brasil Amazonas e é membro titular do diretório da Federação União Progressista










