Coluna 16 de Warly Bentes | O VAZIO EXISTENCIAL CONECTADO

​No final da minha infância eu tive uma paixão platônica. Era uma colega de aula. Estudamos na mesma turma durante o que antes se chamava ginásio (de 5a. a 8a. série). Ela era muito inteligente, simpática com todos e linda. Nós éramos sempre escolhidos como representantes da turma, nos revezando no posto de titular e …

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​No final da minha infância eu tive uma paixão platônica. Era uma colega de aula. Estudamos na mesma turma durante o que antes se chamava ginásio (de 5a. a 8a. série). Ela era muito inteligente, simpática com todos e linda. Nós éramos sempre escolhidos como representantes da turma, nos revezando no posto de titular e vice, às vezes eu, às vezes ela nas duas funções. Nunca me declarei. Faltou coragem e o máximo que consegui foi dar um presente simples no aniversário dela. Claro que me arrependo de não ter exposto meu sentimento, afinal, hoje eu sei que na dúvida é melhor se arrepender dos atos que fizemos do que dos que deixamos de fazer. Com certeza, inconscientemente, a minha falta de coragem já foi uma manifestação de um sentimento que aflige muitos na vida adulta: O MEDO DA REJEIÇÃO.

​Eu sempre fui muito tímido, reservado, um anti-social. Preferia ficar em casa estudando, pensando, observando… E, buscando compreender UM VAZIO que sentia sem saber explicar de onde vinha e o porquê de o sentir. Por muito tempo procurei preencher esse vazio na religião. E sim, Jesus, seus ensinamentos e exemplos, preencheram-o em grande parte e ajudaram a formar meu caráter, minhas convicções. minha índole como ser humano… Mas ele (o vazio) continua aqui.

Esse sentimento ajuda a entender um “fenômeno” dos dias de hoje que os pensadores chamam de PARASSOCIAL. Algo que nem é tão atual, mas que acompanha a Humanidade desde que esta passou a conceituar suas emoções e o mundo à sua volta. Parassocial é um vínculo emocional unilateral, que uma pessoa desenvolve com uma figura midiática (como celebridades, influenciadores, personagens fictícios ou inteligências artificiais) sem que haja contato direto ou reciprocidade. Foi eleita a palavra do ano de 2025 pelo Dicionário de Cambridge, o conceito reflete a sensação de proximidade e amizade que o público desenvolve com quem consome conteúdo, mesmo sem conhecer essa pessoa pessoalmente. É o que explica a existência dos stalkers, dos haters e daqueles que terceirizam seus pensamentos, sua razão… Aqueles que defendem ideologias ultrapassadas, modos de vida do fracasso, políticos e ídolos como se deuses fossem.

Muito antes de qualquer rede social e algoritmo, Sócrates já havia identificado o maior risco da existência humana. Na Apologia de Sócrates, ele afirma:

“Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.”

Não era uma frase inspiracional. Era um diagnóstico. O perigo não era a escassez de informação, era a ausência de exame interior. Seu discípulo Platão, na República, descreve a alma desordenada como aquela governada por apetites e ilusões, afastada do Bem. Quando a razão não governa, a vida perde harmonia. O que é o vazio existencial senão essa desordem interior elevada à escala moderna?

A tecnologia prometeu conexão ilimitada; e cumpriu. Mas conexão não é encontro. O que a psicologia contemporânea chama de relação parassocial surgiu no ano de 1956 com Donald Horton e R. Richard Wohl (sociólogo e psicólogo americanos, estudiosos da comunicação) que publicaram o artigo clássico: “Mass Communication and Para-Social Interaction: Observations on Intimacy at a Distance” Nele, cunharam o termo interação parassocial (parasocial interaction).

Este termo ganhou nova dimensão com as redes sociais, os influenciadores digitais e, agora, as inteligências artificiais interativas. Entramos naquilo que poderíamos chamar de Era do Parassocial: um tempo em que a experiência de proximidade é cada vez mais mediada, personalizada e previsível. Sherry Turkle, pesquisadora do MIT, argumenta em Alone Together que estamos “sozinhos juntos”, conectados tecnologicamente, mas emocionalmente isolados. Segundo ela, a tecnologia oferece a “ilusão de companhia sem as demandas da amizade”. Essa é a marca da Era do Parassocial: intimidade sem reciprocidade, companhia sem vulnerabilidade, diálogo sem divergência radical.

Blaise Pascal já alertava: “Toda a infelicidade dos homens provém de uma única coisa: não saber permanecer em repouso num quarto.” Como no meu caso, o silêncio revela o vazio. Mas agora a tecnologia o encobre. Hoje, o quarto nunca está vazio. A tela está acesa. A notificação chega. A IA responde. O feed se atualiza infinitamente. Mas distração não é sentido, não é propósito de vida.

Friedrich Nietzsche diagnosticou a crise moderna ao escrever em A Gaia Ciência: Ele defende que sem fundamentos transcendentes, o homem corre o risco do niilismo, termo que significa a perda de sentido objetivo de vida. Pois criar valores exige esforço. Mas com a tecnologia, consumir simulações exige apenas um clique.

Viktor Frankl escreveu em Em Busca de Sentido: “A busca de sentido é a motivação primária da vida humana.” Quando essa busca falha, o homem compensa. Antes com poder ou prazer. Hoje, também com conexão constante. Mas conexão não substitui significado.

Martin Buber afirmou em seu livro Eu e Tu:
“Toda vida real é encontro.”

A Era do Parassocial enfraquece justamente essa dimensão. O outro torna-se previsível, programável, estatístico. Byung-Chul Han observa em A Sociedade do Cansaço que vivemos numa cultura do desempenho e da auto exploração. Nesse cenário, buscamos reconhecimento constante — e as plataformas oferecem isso sob demanda.

Já Jean Baudrillard (um dos meus pensadores favoritos) descreveu em Simulacros e Simulação o mundo onde a representação substitui o real.
Estamos vivendo o simulacro da intimidade.

Assim chegamos à pergunta que inquieta: se Sócrates nos convocava ao exame da vida, se Platão falava da harmonia da alma, se Nietzsche alertava para o niilismo (a falta de um sentido na vida), se Frankl dizia que o homem vive para encontrar sentido… O que acontece quando substituímos o encontro imprevisível por interações programadas?

Um relatório recente da organização Common Sense Media, baseado em uma pesquisa com mais de 1.000 adolescentes nos Estados Unidos, encontrou que:
​•​72% dos adolescentes já usaram “companhias” de IA (robôs digitais configurados para conversar como se fossem amigos ou personagens), e cerca de 52% usam com alguma regularidade.
​•​33% dos adolescentes relatam usar IA para interações sociais, que incluem conversas, apoio emocional, amizade e até interações românticas ou de role-play — basicamente, tipo namoro ou flerte virtual.
​•​31% dizem que as conversas com IA são tão satisfatórias quanto (ou mais) do que com amigos humanos.

Talvez o maior risco da Era do Parassocial não seja que as máquinas pensem. Talvez seja que nós nos acostumemos a relações sem risco, sem transcendência e sem profundidade. Porque o vazio existencial não desaparece quando é entretido. Ele apenas se torna digital. E perigosamente confortável.

Eu tive medo de me declarar para a minha colega do ginásio, medo de ser rejeitado. Mas enfrentar nossos medos, imperfeições e o desconhecido é o que nos torna HUMANOS. Ainda sinto o vazio existencial, mas tenho agora um propósito de vida que o preenche e estou na missão de realizá-lo. Por fim, podemos concluir que nestes tempos de hiperconexão digital, o algoritmo pode nos acompanhar. Mas só o outro ser humano pode nos transformar. No dia em que preferirmos definitivamente a simulação ao encontro, não será a tecnologia que terá vencido. Será o vazio.

E você, teve um primeiro grande amor? E como lida com seu vazio existencial? Você reconhece esse sentimento na sua vida?

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