Imagine a seguinte cena. Faltam poucos dias para a eleição. Você ainda não decidiu em quem votar. Abre o celular. Pesquisa: candidato A, 42%. Candidato B, 31%. Candidato C, 8%. Você olha novamente. E pensa: “Então é esse que está ganhando.” Pronto. Uma informação que deveria apenas revelar a opinião dos outros pode ter começado …
Coluna 32 Warly Pontes | PESQUISA INFLUENCIA O VOTO

Imagine a seguinte cena. Faltam poucos dias para a eleição. Você ainda não decidiu em quem votar. Abre o celular. Pesquisa: candidato A, 42%. Candidato B, 31%. Candidato C, 8%. Você olha novamente. E pensa: “Então é esse que está ganhando.” Pronto. Uma informação que deveria apenas revelar a opinião dos outros pode ter começado a interferir na sua própria opinião. É aí que perguntamos: A pesquisa eleitoral apenas mede a vontade do eleitor ou também pode ajudar a produzi-la?
O problema não nasceu com a internet. Pesquisas de opinião são muito mais antigas do que redes sociais, televisão e institutos modernos. Nos Estados Unidos, jornais e organizações já realizavam as chamadas straw polls no século XIX. Mas a grande transformação aconteceu no século XX. Em 1916, a revista The Literary Digest começou a realizar pesquisas nacionais. Seu método impressionava pelo tamanho: milhões de questionários eram enviados. E então veio 1936. A revista consultou milhões de pessoas e anunciou uma vitória expressiva de Alf Landon sobre Franklin Roosevelt. Errou. Roosevelt venceu com ampla vantagem. O episódio tornou-se um dos casos clássicos da história das pesquisas eleitorais. O problema não era simplesmente “pouca gente entrevistada”. Era justamente o contrário: milhões de respostas não garantiam uma amostra representativa. Estudos posteriores apontaram vieses tanto na composição da amostra quanto na disposição das pessoas em responder. Enquanto isso, George Gallup trabalhava com amostras muito menores, mas estatisticamente estruturadas. A experiência de 1936 ajudou a consolidar uma ideia que hoje parece óbvia: a pesquisa não é um concurso de quantidade. É ciência de amostragem.
Mas existe um detalhe que a matemática não resolve. Uma pesquisa pode tentar medir a opinião. Mas o eleitor também pode ver a pesquisa. E aí o objeto medido começa a receber informação sobre aquilo que foi medido. É uma espécie de paradoxo: o termômetro não deveria alterar a temperatura. Mas o eleitor não é um termômetro. Ele pensa. Compara. Tem medo. Torce. Reage.
O psicólogo social Robert Cialdini, em Influence: The Psychology of Persuasion, estudou mecanismos pelos quais o comportamento das pessoas é afetado pelo comportamento percebido dos outros. É aqui que aparece o chamado efeito de adesão, o bandwagon efeito: a possibilidade de que algumas pessoas se aproximem de uma opção porque percebem que ela está ganhando força. Pesquisas experimentais encontraram evidências desse fenômeno em diferentes contextos. Um estudo publicado na Scandinavian Political Studies, por exemplo, encontrou efeito de bandwagon entre eleitores dinamarqueses expostos a informações sobre pesquisas eleitorais. Mas existe também o movimento contrário. O eleitor pode pensar: “Todo mundo está contra ele. Então eu vou votar nele.” É o chamado efeito underdog, a simpatia pelo candidato percebido como derrotado. Portanto, a pesquisa não produz automaticamente um vencedor. Ela produz informação. E informação produz comportamento.
O psicólogo e economista Daniel Kahneman, vencedor do Nobel de Economia de 2002, mostrou como os seres humanos utilizam atalhos mentais para tomar decisões. Não analisamos tudo profundamente o tempo todo. E isso é perfeitamente compreensível. Diante de dez candidatos, dezenas de propostas, milhares de informações, vídeos, entrevistas, ataques e contra-ataques, o cérebro procura atalhos. A pesquisa oferece um deles: “Se tanta gente está escolhendo esse candidato, talvez ele seja uma escolha segura.” Não significa que o eleitor seja ignorante. Significa que ele é humano. E é justamente por isso que pesquisas eleitorais podem ter importância política muito maior do que simplesmente produzir um gráfico para o jornal.
No Brasil, pesquisa virou parte do espetáculo eleitoral. Temos eleições em ciclos regulares de 2 em 2 anos e, na prática, uma nova disputa começa quando a anterior ainda está sendo desmontada. Pesquisa. Marketing. Consultoria. Publicidade. Redes sociais. Produção de conteúdo. Eventos. Assessoria. Estratégia. Comunicação. Uma verdadeira cadeia profissional se movimenta em torno da disputa eleitoral. E aqui aparece uma expressão provocadora: um mercado de caçadores do dinheiro do candidato. Não se trata de acusar genericamente profissionais ou empresas de irregularidades. Existe, obviamente, trabalho legítimo e especializado. A pergunta é outra: quando a política se transforma em atividade permanente, quantas pessoas passam a viver profissionalmente da própria existência da eleição? E mais: quanto custa convencer alguém a votar em alguém? Assim a eleição deixa de ser apenas um momento de escolha popular e passa a movimentar um mercado. O candidato precisa de votos. O eleitor precisa de informação. E entre os dois surge uma indústria inteira dizendo saber como transformar informação em voto. E quem paga a conta?
No Brasil, pesquisas eleitorais destinadas ao conhecimento público precisam ser registradas na Justiça Eleitoral, com informações sobre contratante, metodologia, período da coleta, amostra, margem de erro e outros dados. O TSE esclarece, entretanto, que não faz controle prévio do resultado da pesquisa; o registro não significa que a Justiça Eleitoral tenha certificado que aquele resultado esteja correto. Essa distinção é fundamental. Pesquisa registrada não significa pesquisa aprovada pelo TSE. Significa que ela foi registrada conforme as regras eleitorais. O leitor precisa olhar metodologia, tamanho e composição da amostra, margem de erro, período da coleta e quem contratou o levantamento. Porque existe uma diferença enorme entre: “uma pesquisa mostrou” e “a verdade é esta”.
E por que tanta gente decide tão tarde? Aqui entramos em outro fenômeno interessante. A ideia de que “todo mundo decide na véspera” é exagerada. Mas a decisão tardia existe. Na eleição presidencial brasileira de 2022, por exemplo, pesquisa Datafolha indicou que 10% dos eleitores disseram ter decidido o voto no próprio dia ou na véspera do primeiro turno. Para outros cargos, a definição foi ainda mais tardia. Por quê? Porque muitos eleitores não acompanham política durante todo o ciclo eleitoral. A eleição entra no radar quando começa a ocupar televisão, celular, conversa de família, grupo de WhatsApp e rede social. E então acontece algo curioso. O eleitor que passou meses sem prestar atenção precisa, em poucos dias, construir uma decisão. Quem aparece? Quem está crescendo? Quem pode chegar ao segundo turno? Quem tem chance? Quem pode derrotar quem? E a pesquisa passa a funcionar não apenas como fotografia. Passa a funcionar como mapa.
É nesse momento que surge outro comportamento: o voto estratégico. “Meu candidato preferido não tem chance.” “Então vou votar naquele que pode vencer.” Aqui está uma das maiores ironias da democracia eleitoral: o eleitor pode abandonar sua primeira preferência não porque mudou de opinião sobre ela, mas porque acredita que ela não tem possibilidade de vitória. E quem fornece parte dessa percepção? As pesquisas. Não necessariamente porque estejam manipulando alguém. Mas porque apresentam uma fotografia do cenário. E uma fotografia pode mudar o comportamento de quem a observa.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua crítica às pesquisas de opinião, questionou a própria ideia de que exista uma “opinião pública” perfeitamente formada esperando apenas para ser medida. A provocação é poderosa. Será que todas as pessoas possuem uma opinião definida sobre todas as questões? Ou muitas opiniões são construídas quando alguém pergunta? Se isso é verdade, então a pesquisa não está apenas descobrindo opiniões. Em alguma medida, está também organizando opiniões que antes eram difusas. E aqui o problema deixa de ser estatístico. Passa a ser filosófico.
A pesquisa pode mudar a eleição? Pode influenciar. Mas não existe uma lei universal dizendo que toda pesquisa modifica o voto. Alguns eleitores seguem seu candidato independentemente das pesquisas. Outros aderem ao líder. Alguns apoiam o azarão. Outros mudam para o candidato que consideram capaz de derrotar aqueles que rejeitam. E muitos simplesmente ignoram as pesquisas. Portanto, dizer que “pesquisa manipula eleição” seria simplificar demais. Mas afirmar que “pesquisa não influencia ninguém” também seria ignorar uma parte importante da ciência do comportamento eleitoral. A verdade é mais incômoda: a pesquisa pode ser informação e, simultaneamente, tornar-se estímulo.
Então, quem está votando? Essa talvez seja a pergunta que realmente interessa. Quando você escolhe um candidato porque acredita em suas ideias, está exercendo sua vontade. Mas quando escolhe porque ele está liderando? Quando muda seu voto porque acredita que seu candidato não tem chance? Quando abandona sua preferência para impedir a vitória de outro? Quando decide depois de assistir a dez vídeos sobre quem está subindo e quem está caindo? Ainda é sua decisão. Claro que é. Mas agora sabemos que decisões humanas não acontecem no vácuo. Somos influenciados pelo ambiente, pelas pessoas, pelas informações e pela percepção daquilo que os outros estão fazendo. E talvez seja justamente por isso que uma pesquisa eleitoral seja muito mais poderosa do que parece. Ela não coloca uma urna na cabeça do eleitor. Não escolhe por ele. Não aperta o botão. Mas pode colocar uma pergunta dentro da sua cabeça: “Se todo mundo está votando nele… será que eu também deveria?” E aí chegamos ao paradoxo. A pesquisa tenta descobrir quem o eleitor vai escolher. Mas, ao mostrar quem está na frente, pode ajudar o eleitor a escolher. Nesse momento, a pesquisa deixa de ser apenas a fotografia de um momento.
E você? Já havia pensado nisso? Acredita nas pesquisas eleitorais?










