Você já se fez essa pergunta: até onde a gente consegue sentir a dor do outro sem acabar carregando essa dor para dentro da gente? Eu, como um bom pisciano, sempre ouvi que somos extremamente sensíveis, intuitivos, empáticos... E tem até aquela brincadeira de que alguns de nós já estamos na “última encarnação” por aqui. …
Coluna Marcos Coerais 28 I Até onde a empatia nos aproxima do outro sem nos afastar de nós mesmos?

Você já se fez essa pergunta: até onde a gente consegue sentir a dor do outro sem acabar carregando essa dor para dentro da gente?
Eu, como um bom pisciano, sempre ouvi que somos extremamente sensíveis, intuitivos, empáticos… E tem até aquela brincadeira de que alguns de nós já estamos na “última encarnação” por aqui. Não sei se é verdade, mas uma coisa eu reconheço: eu sinto muito o que acontece com as pessoas.
Às vezes, de tanto tentar entender o outro, a gente vira uma espécie de esponja. Absorve o problema, a tristeza, a ansiedade, a energia, a angústia… E, quando percebe, o problema nem é nosso, mas está ocupando espaço dentro da gente.
No meu caso, eu aprendi a me blindar um pouco. Não porque eu queira ser indiferente. Muito pelo contrário. É justamente porque eu me importo que preciso aprender até onde posso ir.
Mas aí vem a pergunta: de onde surgiu essa ideia de “se colocar no lugar do outro”?
A palavra empatia tem uma história interessante. O conceito foi desenvolvido a partir de ideias da estética e da psicologia e ganhou força no século XX, especialmente na psicologia humanista, com profissionais como Carl Rogers, que defendia a importância de compreender genuinamente a experiência do outro. E talvez seja daí que venha essa expressão tão popular: “calçar o sapato do outro”.
Só que tem uma diferença importante: ter empatia não significa viver a vida do outro.
É tentar compreender o que aquela pessoa está sentindo, mesmo que você nunca tenha passado exatamente pela mesma situação.
E será que excesso de empatia pode fazer mal?
Eu acho que pode.
Porque existe uma linha muito tênue entre compreender a dor e absorver a dor.
E tem outra questão que me incomoda ainda mais: será que usamos a empatia sempre para fazer justiça? Ou, às vezes, usamos a nossa empatia apenas com quem pensamos parecido com a gente?
É curioso, porque podemos ser extremamente compreensivos com alguém que amamos e, ao mesmo tempo, completamente incapazes de compreender alguém que pensa diferente.
Empatia e preconceito podem andar lado a lado?
Talvez a resposta esteja justamente aí: ser empático de verdade também exige tentar compreender quem está fora da nossa bolha.
Mas então, como continuar sendo uma pessoa empática sem se destruir no processo?
Talvez o primeiro passo seja entender que ajudar alguém não significa resolver a vida daquela pessoa.
Você pode ouvir sem carregar.
Pode acolher sem absorver.
Pode compreender sem concordar.
Pode estar presente sem se abandonar.
E principalmente: coloque limites.
Tem uma imagem que eu gosto muito para explicar isso. Em uma emergência dentro de um avião, se as máscaras de oxigênio caírem, a orientação é clara: coloque primeiro a sua máscara e depois ajude quem está ao seu lado.
E isso não é egoísmo. É sobrevivência.
Porque, se eu não estiver respirando, como vou conseguir ajudar alguém?
Talvez a verdadeira empatia seja justamente essa: eu consigo sentir a sua dor, mas não preciso me perder dentro dela.
Eu posso caminhar ao seu lado, mas continuo sabendo qual é o meu caminho.
E talvez esse seja o equilíbrio: ter um coração aberto, mas não deixar a porta escancarada para tudo entrar.










