O debate ajuda a derrubar o mito de que linha editorial definida é incompatível com jornalismo comprometido com os fatos
Editorial | The New York Times e Foco no Fato: o que a imprensa americana e brasileira ensinam sobre ter lado sem distorcer os fatos

Nos Estados Unidos, um dos jornais mais influentes do mundo assume posições políticas em seus editoriais. O debate ajuda a derrubar o mito de que linha editorial definida é incompatível com jornalismo comprometido com os fatos.
Em tempos de polarização política, uma discussão se torna cada vez mais necessária: um veículo de comunicação pode ter uma linha editorial definida e, ao mesmo tempo, praticar jornalismo com responsabilidade e compromisso com os fatos? A experiência da imprensa norte-americana mostra que sim.
O The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, construiu uma longa tradição de declarar, por meio de seu conselho editorial, preferência por candidatos à Presidência dos Estados Unidos. Nas últimas décadas, suas escolhas presidenciais estiveram concentradas no campo democrata. Isso não acontece de maneira escondida. A posição é apresentada ao leitor como opinião editorial, enquanto a cobertura jornalística é institucionalmente separada do conselho responsável pelos editoriais. Essa diferença é fundamental.
Linha editorial não é sinônimo de imparcialidade absoluta
Existe uma ideia recorrente de que um veículo de comunicação só pode ser considerado jornalístico se não possuir qualquer posição política.A própria história da imprensa mostra que essa interpretação é discutível.
Jornais podem defender valores, ideias econômicas, posições institucionais e até declarar preferência eleitoral. O ponto central está na transparência com o público e na separação entre informação e opinião.
Uma matéria jornalística deve respeitar fatos, documentos, declarações e o direito ao contraditório. Um editorial, por sua natureza, representa a interpretação e o posicionamento institucional do veículo.São produtos diferentes.
O problema começa quando essa fronteira desaparece. O modelo americano oferece uma reflexão importante para a imprensa brasileira. É possível um jornal afirmar em sua página editorial que considera determinado candidato melhor para o país e, ao mesmo tempo, publicar reportagens críticas sobre esse mesmo candidato quando os fatos assim exigirem.
Da mesma maneira, pode discordar politicamente de outro candidato sem deixar de registrar fatos positivos relacionados a ele.É justamente essa capacidade de separar preferência editorial de apuração jornalística que ajuda a preservar a credibilidade.
O compromisso de uma redação não precisa ser com a inexistência de valores. Precisa ser, antes de tudo, com a verdade factual. Essa talvez seja a principal diferença. Um veículo assumir posição editorial significa dizer claramente ao leitor quais princípios defende e como interpreta determinados acontecimentos. Militância é outra coisa. Ela aparece quando fatos inconvenientes são omitidos, informações são distorcidas para favorecer aliados, adversários são julgados por critérios diferentes ou quando notícia e opinião passam a ser apresentadas como se fossem a mesma coisa.
Nesse momento, deixa de existir apenas uma linha editorial e surge um problema de credibilidade.O leitor pode aceitar discordar de um jornal. O que dificilmente aceita é descobrir que recebeu uma informação incompleta porque determinado fato contrariava os interesses ou as convicções daquele veículo.
DO NEW YORK TIMES AO FOCO NO FATO
Esse debate também alcança veículos regionais como o Foco no Fato, especialmente diante de uma eleição marcada pela polarização política no Amazonas e no Brasil.Ter uma linha editorial identificável não deveria ser tratado como pecado jornalístico. O fundamental é que o leitor saiba distinguir claramente onde termina o fato e onde começa a interpretação.
O Foco no Fato pode fazer análises contundentes, defender ideias, questionar governos e candidatos e assumir posições editoriais. Isso não elimina a obrigação de reconhecer fatos, inclusive quando eles favorecem personagens dos quais editorialmente o veículo possa discordar. A lógica precisa funcionar também no sentido contrário: proximidade política ou concordância ideológica jamais podem transformar erro em acerto. Essa é a fronteira. Opinião pode ter lado. Fato não pode ser inventado.
Talvez o grande desafio do jornalismo contemporâneo não seja convencer o público de que veículos de comunicação não possuem opiniões. É demonstrar que suas opiniões não alteram os fatos. O New York Times pode declarar apoio editorial a um candidato presidencial e continuar submetido diariamente ao julgamento dos leitores sobre a qualidade de seu jornalismo.
O mesmo princípio vale para o Foco no Fato e para qualquer outro veículo brasileiro que escolha deixar sua linha editorial clara. No final, o patrimônio mais importante de um veículo de comunicação não está em ser de direita, de esquerda ou de centro. Está na credibilidade construída diante de seu público. E talvez exista uma frase capaz de resumir toda essa discussão: Ojornal pode escolher o lado que defende em seu editorial. O que não pode é escolher quais fatos são verdadeiros de acordo com o lado que defende.










