INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: Pandemia estimula a automação do setor de serviços nos EUA. Tendência ameaça postos de trabalho de baixa e média remuneração mais expostos à automação, como de balconistas, caixas e auxiliares.

Ao pedir um sanduíche em um drive-thru do Arby’s em Los Angeles e você pode estar falando com Tori, um assistente de voz de inteligência artificial que anota seu pedido e o envia para os cozinheiros. “Ele não falta por motivo de doença”, diz Amir Siddiqi, cuja família instalou neste ano o assistente de voz …

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Ao pedir um sanduíche em um drive-thru do Arby’s em Los Angeles e você pode estar falando com Tori, um assistente de voz de inteligência artificial que anota seu pedido e o envia para os cozinheiros.

“Ele não falta por motivo de doença”, diz Amir Siddiqi, cuja família instalou neste ano o assistente de voz de IA em sua franquia da Arby’s em Ontário, Califórnia. “Ele não pega covid-19. E sua confiabilidade é excelente.”

Além de continuar a ameaçar a saúde dos americanos, a pandemia de covid-19 também pode representar uma ameaça de longo prazo para muitos de seus empregos. Diante da escassez de trabalhadores e dos custos mais altos de mão de obra, as empresas começaram a automatizar trabalhos no setor de serviços que até então economistas consideravam seguros, por assumir que máquinas não poderiam fornecer com facilidade o contato humano que acreditavam que os clientes exigiriam.

Experiências anteriores sugerem que tais ondas de automação eventualmente criam mais empregos do que destroem, mas elas também eliminam de forma desproporcional os empregos menos qualificados, dos quais muitos trabalhadores de baixa renda dependem. Os problemas iniciais que resultam disso para a economia dos EUA podem ser graves.

Se não fosse pela pandemia, provavelmente Siddiqi não teria se incomodado em investir em uma nova tecnologia que poderia alienar seus funcionários e alguns clientes. Mas ele diz que tudo correu sem problemas: “Basicamente, menos pessoas são necessárias, e agora essas pessoas trabalham na cozinha e em outras áreas.”

Johannes Moenius, economista da Universidade de Redlands, diz que a automação pode reposicionar os funcionários para um trabalho melhor e mais interessante, desde que eles possam obter o treinamento técnico apropriado. Mas reconhece que isso não está ocorrendo rápido o suficiente.

Pior ainda, toda uma classe de empregos do setor de serviços criados quando a manufatura começou a implantar mais automação pode estar em risco. “Os robôs saíram do setor de manufatura e foram para o setor de serviços, que é muito maior”, diz Moenius. “Eu considerava os empregos que preveem contato humano como seguros. Fui pego de surpresa.”

Os avanços na tecnologia robótica permitem que máquinas executem muitas tarefas que antes exigiam pessoas – como misturar massa de pizza, transportar roupas de cama em hospitais, inspecionar medidores e separar mercadorias. A pandemia acelerou sua adoção. No fim das contas, robôs não ficam doentes ou espalham doenças. Nem pedem folga para lidar com emergências inesperadas com os filhos.

Economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) verificaram que pandemias anteriores encorajaram empresas a investirem em máquinas de maneiras que pudessem aumentar a produtividade – mas também mataram empregos de baixa qualificação. “Nossos achados sugerem que os temores sobre o aumento do número de robôs em meio à pandemia da covid-19 parecem justificados”, escreveram eles em um artigo de janeiro.

As consequências podem afetar principalmente as mulheres com menor escolaridade, que ocupam de forma desproporcional os postos de trabalho de baixa e média remuneração mais expostos à automação – e à covid-19. Entre eles, os de balconistas, assistentes administrativos, caixas e auxiliares em hospitais e cuidadores de doentes e idosos.

Os empregadores parecem ansiosos por introduzir máquinas. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo Fórum Econômico Mundial descobriu que 43% das empresas planejavam reduzir sua força de trabalho como consequência da introdução de novas tecnologias. Desde o segundo trimestre de 2020, o investimento em equipamentos cresceu 26%, mais de duas vezes mais rápido do que a economia em geral.

A expectativa é que o crescimento mais rápido ocorra na área das máquinas que fazem a limpeza de pisos de supermercados, hospitais e depósitos, segundo a Federação Internacional de Robótica, entidade representativa do setor. O grupo também espera um aumento nas vendas de robôs que fornecem informações aos clientes de lojas ou entregam pedidos de serviço de quarto em hotéis.

Os restaurantes estão entre os usuários de robôs com maior visibilidade. No fim de agosto, por exemplo, a rede especializada em saladas Sweetgreen anunciou que comprara a startup de robótica para cozinha Spyce, que fabrica uma máquina que cozinha vegetais e grãos e os despeja em tigelas.

E não se trata apenas de robôs – softwares e serviços baseados em inteligência artificial também estão em ascensão. A Starbucks tem automatizado o trabalho de controle do estoque de suas unidades. E mais lojas passaram a usar totens de autoatendimento (em que o próprio cliente passa as compras no caixa e paga, sem a presença de um funcionário).

O aumento na automação não impediu uma significativa recuperação no mercado de trabalho dos EUA – pelo menos até agora.

A economia americana perdeu o espantoso número de 22,4 milhões de empregos em março e abril de 2020, quando o vendaval da pandemia atingiu os EUA. Mas as contratações se recuperaram de forma vigorosa: os empregadores trouxeram de volta 17 milhões de postos de trabalho desde abril de 2020. Em junho, eles registraram um recorde de 10,1 milhões de vagas abertas de empregos e reclamam que não conseguem encontrar trabalhadores suficientes.

Por trás do boom de contratações está um salto nos gastos dos consumidores, muitos dos quais superaram a crise em uma situação financeira inesperadamente boa – graças aos cheques de ajuda financeira federal e, em muitos casos, ao que economizaram por trabalhar em casa e evitar os deslocamentos diários de ida e volta do local de trabalho.

Por enquanto, os benefícios de curto prazo da recuperação econômica têm suplantado qualquer perda de vagas de trabalho provocadas pela automação, cujos efeitos tendem a aparecer gradualmente, ao longo dos anos. Isso pode durar pouco. No ano passado, pesquisadores da Universidade de Zurique e da Universidade de British Columbia verificaram que as chamadas recuperações sem criação de empregos dos últimos 35 anos, em que a produção econômica se recuperou das recessões mais rapidamente do que o emprego, podem ser explicadas pela perda de postos de trabalho vulneráveis à automação.

Apesar das fortes contratações desde meados do ano passado, a economia dos EUA ainda tem 5,3 milhões de empregos a menos do que tinha em fevereiro de 2020. Lydia Boussour, da consultoria Oxford Economics, estimou no mês passado que 40% dos postos de trabalho perdidos eram vulneráveis à automação, principalmente nas áreas de preparo de alimentos, vendas no varejo e manufatura.

Fonte: Valor Econômico

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