Candidato a reeleição não participou do primeiro debate entre candidatos ao Governo do Amazonas
O debate da Band teve um vencedor e ele nem precisou comparecer: Roberto Cidade

Ausência do governador frustrou a estratégia dos adversários, que esperavam transformá-lo no principal alvo da noite, e acabou reforçando a leitura de que Cidade acertou ao ficar fora do confronto
O debate promovido pela Band pode ter terminado sem a presença de Roberto Cidade, mas, politicamente, o governador esteve no centro da disputa. E, numa daquelas ironias que só a política proporciona, o grande vencedor da noite pode ter sido exatamente quem decidiu não sentar à bancada: Roberto Cidade.
A ausência, inicialmente explorada pelos adversários como argumento para criticá-lo, ganhou outra dimensão depois do confronto. Sem Cidade no estúdio, os candidatos precisaram dividir ataques, responder perguntas desconfortáveis e expor suas próprias fragilidades, enquanto o governador acompanhava tudo de fora, sem assumir os riscos naturais de um debate televisionado.
A estratégia ficou ainda mais evidente porque Cidade provavelmente seria o principal alvo caso estivesse presente. Na condição de governador e candidato à reeleição, naturalmente concentraria boa parte das perguntas e ataques dos adversários.
Ao não comparecer, porém, Cidade desmontou essa dinâmica.
Quem esperava usar o debate para encurralar o governador precisou procurar outros alvos. E, em vez de Cidade passar a noite respondendo aos adversários, foram os próprios concorrentes que acabaram obrigados a confrontar uns aos outros.
O episódio mais emblemático ocorreu no embate entre Maria do Carmo e David Almeida, quando uma pergunta sobre a formação acadêmica de Fernanda Aryel produziu uma resposta que rapidamente ganhou repercussão política e nas redes sociais. O episódio mostrou exatamente o risco que Cidade decidiu não correr: em debates, alguns segundos podem produzir recortes capazes de dominar a discussão pública por dias.
Do ponto de vista estratégico, a decisão parece ter cumprido seu objetivo.
Cidade entrou no domingo como o candidato que seria potencialmente bombardeado pelos adversários e saiu sem precisar responder a nenhum deles. Não foi confrontado diretamente, não ficou sujeito a uma resposta mal formulada e não entregou aos concorrentes imagens que pudessem ser exploradas posteriormente na campanha.
Mais do que simplesmente faltar, o governador retirou dos adversários o alvo que eles pareciam preparados para atacar.
É claro que a ausência também pode ser explorada politicamente. Adversários podem acusá-lo de fugir do confronto e defender que candidatos ao Governo do Amazonas têm obrigação de participar dos debates. Essa é uma cobrança legítima dentro do processo eleitoral.
E a pergunta que fica depois do debate é simples: quem ganhou mais politicamente, quem compareceu ou quem ficou de fora?
Pelo saldo do confronto, Cidade parece ter calculado que tinha muito mais a perder do que a ganhar entrando em uma arena na qual três adversários poderiam concentrar fogo contra ele.
O paradoxo é que a ausência não retirou Roberto Cidade do debate. Pelo contrário: transformou sua cadeira vazia em elemento político da noite.
Enquanto seus adversários disputavam espaço, trocavam acusações e corriam o risco de cometer erros diante das câmeras, Cidade preservava sua campanha e deixava os concorrentes se desgastarem entre si.
Se o objetivo de um debate é produzir ganhos políticos e evitar prejuízos eleitorais, a estratégia adotada pelo governador merece ser considerada no balanço final.
Roberto Cidade não fez pergunta, não respondeu, não atacou e não foi atacado frente a frente. Mesmo assim, terminou o debate como um dos personagens mais comentados.
No xadrez eleitoral, nem sempre vence quem movimenta mais peças.
Às vezes, a melhor jogada é simplesmente não entrar no jogo que o adversário preparou para você.
E, olhando para o que aconteceu na Band, o candidato que não compareceu pode ter sido justamente quem saiu da noite com o melhor resultado político.









