R$ 80 milhões e pouco espaço: Passarão gera alerta antes mesmo de ser entregue

Imagens da alça superior mostram pistas confinadas por barreiras e levantam uma pergunta incômoda: o novo complexo viário terá largura suficiente para operar com segurança e fluidez?

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O Complexo Viário Passarão ainda nem foi entregue, mas uma parte da obra já concentra críticas: a largura estreita da alça superior.

Imagens da estrutura em fase avançada mostram faixas confinadas entre barreiras rígidas, com reduzida folga lateral aparente.

A configuração provoca dúvidas sobre a circulação simultânea de veículos, especialmente ônibus e caminhões, e sobre os impactos de panes, colisões ou intervenções de emergência.

O problema não é apenas a sensação de pista apertada. Em uma estrutura elevada e delimitada por barreiras, a largura útil das faixas, os afastamentos laterais e o alinhamento da pista influenciam a segurança e o comportamento dos motoristas.

Qualquer veículo imobilizado poderá comprometer parte significativa da passagem. Nessas circunstâncias, a capacidade de resposta dependerá da sinalização, do monitoramento, do acesso das equipes de emergência e dos procedimentos estabelecidos para retirar rapidamente o veículo.

A obra, estimada em R$ 80,3 milhões, está sendo implantada no encontro das avenidas Brasil e Coronel Teixeira, considerado pela Prefeitura de Manaus um dos cinco maiores pontos de retenção da cidade. Segundo dados municipais, a região recebe aproximadamente 15 mil a 17 mil veículos nos horários de pico.

É justamente por receber tamanho volume de tráfego que a largura do elevado não pode ser tratada como detalhe secundário.

Cabe no projeto. Mas funcionará na rua?

As imagens, isoladamente, não permitem medir com precisão a largura das faixas nem concluir que o projeto esteja fora das normas. Mas justificam uma cobrança objetiva: quais são as dimensões efetivamente executadas?

Uma pista pode atender aos parâmetros mínimos adotados no projeto e, ainda assim, apresentar condições operacionais pouco confortáveis. Em trechos confinados, a proximidade das barreiras reduz a margem de correção dos condutores e pode provocar diminuição de velocidade, sobretudo quando veículos pesados circulam lado a lado.

Essa reação interfere diretamente na fluidez. Frenagens e reduções frequentes de velocidade aumentam a instabilidade do fluxo, favorecem a formação de filas e podem diminuir a capacidade prática da estrutura.

A situação merece atenção ainda maior nas curvas ou mudanças de alinhamento. Ônibus e caminhões não percorrem curvas ocupando o mesmo espaço de um automóvel.

Por isso, não basta afirmar que duas faixas cabem na estrutura. É necessário demonstrar que a seção comporta, com segurança e condições operacionais adequadas, os veículos que efetivamente circulam no local.

A antecipação da entrega amplia a cobrança

O contrato estabelece junho de 2027 como prazo de conclusão. Posteriormente, a Prefeitura anunciou a intenção de antecipar a entrega integral para maio de 2027 e liberar a alça superior ainda em setembro de 2026, enquanto os trabalhos continuariam no nível inferior.

A antecipação acrescenta outra questão: quais verificações técnicas serão concluídas antes da abertura ao tráfego?

Cumprir etapas antes do prazo pode indicar eficiência de execução, mas não comprova, isoladamente, segurança, capacidade ou funcionalidade. Uma estrutura pode estar fisicamente concluída e ainda depender de sinalização, inspeções, testes e planejamento operacional.

A abertura parcial também pode produzir fluxos diferentes daqueles previstos para o complexo em funcionamento integral. Sem todas as conexões disponíveis, a alça poderá direcionar veículos para trechos que ainda operam em configuração provisória.

Diante das imagens e da proximidade da abertura, a Prefeitura precisa divulgar informações objetivas:

•	largura efetiva de cada faixa;
•	distância livre entre as barreiras;
•	folgas laterais consideradas no projeto;
•	velocidade de projeto e velocidade regulamentada;
•	veículo de projeto utilizado;
•	simulações de trajetória de ônibus e caminhões;
•	capacidade estimada da alça na hora de pico;
•	resultados das inspeções e dos testes operacionais;
•	procedimentos para panes, acidentes e retirada de veículos.

Um gargalo pode apenas mudar de lugar

O Passarão reúne elevado, trincheira e rotatória em três níveis. A separação dos movimentos pode reduzir conflitos no cruzamento, mas não garante que o congestionamento desaparecerá.

Se a alça superior, seus acessos, curvas ou saídas tiverem capacidade inferior ao volume recebido, o congestionamento poderá apenas mudar de posição. Em vez de permanecer no cruzamento, a fila poderá se formar sobre o elevado ou nas conexões seguintes.

A aparente estreiteza torna essa possibilidade relevante. Uma estrutura confinada pode operar normalmente em condições ideais, mas perder capacidade rapidamente diante de veículos pesados, reduções de velocidade, panes ou acidentes.

O ponto central, portanto, não é apenas quando a obra será inaugurada. É saber em quais condições ela será aberta e qual desempenho conseguirá entregar.

Por R$ 80,3 milhões, a população deve receber informações que demonstrem que a geometria é compatível com o tráfego previsto, que ônibus e caminhões poderão circular com segurança e que existem procedimentos adequados para ocorrências.

Sem a divulgação das dimensões, das simulações e dos estudos de capacidade, permanecerá a dúvida levantada pelas imagens: o Passarão eliminará o gargalo ou Manaus receberá uma estrutura estreita para o volume de trânsito que deverá suportar?

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