Almoço de domingo na casa dos pais ou avós sempre será um momento de convivência de muita alegria e boas lembranças para toda família. Principalmente nas grandes, com muitos tios, primos, sobrinhos, filhos e netos. Gente falando, gente dançando, gente cantando, gente comendo e bebendo… Foi num ambiente assim, familiar, que ouvi pela primeira …
Coluna 04 de Warly Bentes | Mente vazia, oficina do diabo

Almoço de domingo na casa dos pais ou avós sempre será um momento de convivência de muita alegria e boas lembranças para toda família. Principalmente nas grandes, com muitos tios, primos, sobrinhos, filhos e netos. Gente falando, gente dançando, gente cantando, gente comendo e bebendo… Foi num ambiente assim, familiar, que ouvi pela primeira vez a máxima de que “política e religião não se discute à mesa”. Registros históricos mostram que essa é uma regra de etiqueta com origem na Corte Vitoriana, com a intenção de evitar temas controversos em ocasiões sociais. No Brasil, claro, foi acrescentado um terceiro tema: futebol.
Assim fomos aprendendo as regras de etiqueta social, à mesa e no trabalho. Regras que sempre foram importantes para o bom convívio social e que em essência nos fazem conhecer e praticar duas práticas de vida muito importantes: RESPEITO e TOLERÂNCIA, com os gostos, preferências e escolhas do OUTRO.
Para quem esqueceu, permitam lembrar as 10 regras de etiqueta social mais úteis para a boa convivência:
1. Cumprimente sempre — com um sorriso, um “bom dia” ou aperto de mão (quando apropriado).
2. Respeite o espaço pessoal dos outros (não invada fisicamente nem interrompa conversas).
3. Não interrompa quando alguém estiver falando.
4. Ouça com atenção — olhar nos olhos mostra respeito.
5. Use por favor, obrigado, com licença e desculpa — sempre.
6. Evite falar alto demais em locais públicos.
7. Evite temas polêmicos (religião, política, futebol) em jantares ou reuniões sociais com pessoas pouco conhecidas.
8. Seja pontual — atraso é falta de consideração.
9. Vista-se adequadamente para cada ocasião.
10. Evite fofocas.
Será que estas regras estão desaparecendo nos dias atuais? Para onde nossa civilização caminha sem o respeito para com o outro ser humano? Muitas pessoas agem sempre como se suas vontades, gostos e preferências estivessem acima de todos. Um exemplo: tem gente que vai ao cinema, deita-se na sua poltrona e coloca os pés sobre a poltrona da frente. Age em público como se comporta em casa.
Se na vida real a boa educação, a gentileza e o respeito estão saindo da “moda”, na internet muitos comportamentos chocam pelo absurdo. Os relatos são os mais grotescos. Vão de mulheres que recebem cantadas grosseiras e indesejados “nudes obscenos” no privado, só porque aceitaram um pedido de “amizade” no Facebook ou Instagram; a ataques de ódio por causa de posicionamento político.
Já li diversas vezes a seguinte pergunta: O que leva uma pessoa a ir a uma postagem alheia fazer comentários imorais, ofensivos, de preconceito ou de ódio? Por que alguém ultrapassa limites morais na internet que normalmente não cogitaria ultrapassar na vida real?
Fui atrás de respostas. A primeira é tão óbvia: tem gente que pensa que internet é terra sem lei. Ao contrário, cada computador ou celular tem um número de identidade (o IP) fácil de localizar. Então hoje é possível RESPONSABILIZAR crimes contra a honra, direito de imagem, assédio sexual, pedofilia etc, cometidos na internet.
Autores modernos ampliam as possíveis explicações. Eles dizem que o pensamento nas redes sociais PERDEU SUA PAUSA. O espaço que antes era do diálogo tornou-se um campo de combate, onde cada ideia é recebida não como convite à reflexão, mas como ameaça à identidade. A discussão se converteu em disputa, e o interlocutor — em inimigo.
Para Hannah Arendt (The Life of the Mind, 1978), pensar é um ato solitário e perigoso, pois exige suspender certezas e enfrentar o desconforto da dúvida. Mas a cultura digital abomina o silêncio interior. Ela exige presença constante, reação imediata, posicionamento visível. O tempo do pensamento foi substituído pelo tempo do engajamento.
Byung-Chul Han (Transparenzgesellschaft, 2012), chama essa dinâmica de “sociedade da transparência”, na qual tudo deve ser exposto e opinado. A individualidade se dissolve no espetáculo narcísico da autopromoção. Atacar o outro se torna uma forma de existir — um gesto de autoafirmação num espaço saturado de vozes e carente de escuta.
Michel Foucault (Vigiar e Punir 1975), já havia percebido que o poder não precisa de cárceres para se exercer: ele se infiltra nos discursos, nas normas e, hoje, nos algoritmos. As plataformas recompensam o conflito, transformando a hostilidade em capital simbólico. Assim, cada ataque serve ao sistema que o produz, alimentando uma engrenagem que lucra com a raiva.
Atacar o pensamento de outro, portanto, é um ato que nasce da fragilidade: o medo de ser invisível, de não ter razão, de não ser. E quanto mais a sociedade confunde “ter opinião” com “ter identidade”, mais o diálogo se transforma em campo de batalha — e menos o pensamento cumpre sua verdadeira função: libertar.











