Coluna 21 de Warly Bentes | PRIVACIDADE EMOCIONAL EXPOSTA NA INTERNET

            Sou de uma época em que os “segredos de família” realmente ficavam restritos a um pequeno grupo. O filho fora do casamento; a prima que engravidou do primo; o tio que caiu num golpe de um vigarista; a tia distante que faleceu… Enfim, o que era tabu, o que escandalizava, o que abalava e …

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            Sou de uma época em que os “segredos de família” realmente ficavam restritos a um pequeno grupo. O filho fora do casamento; a prima que engravidou do primo; o tio que caiu num golpe de um vigarista; a tia distante que faleceu… Enfim, o que era tabu, o que escandalizava, o que abalava e provocava fortes emoções ficava entre quatro paredes. Com a internet e as redes sociais isso mudou. Hoje está até difícil, para quem gosta e tem tempo, de acompanhar as mudanças na vida exposta de celebridades, sub celebridades e anônimos que se acham celebridades. Um desfile de futilidade, de maus exemplos e de vidas vazias de bons propósitos.

            Pessoas vaidosas, narcisistas e que gostam de exposição gratuita sempre existiram. Mas o que leva gente comum, como eu e você, a expormos, até inconscientemente, nossos sentimentos na internet? Que obrigação é essa de validar com emojis de coração, de “OK”, de tristeza, de gargalhada ou outro qualquer, o que passa no “feed”? Há até exposições que por causa da pressa em receber likes, são incompletas na questão da informação. Tipo o aviso de luto sem dizer quem morreu. Ou pais que parabenizam o aniversário de seus filhos sem dizer o nome da criatura e quantos anos está completando, rs.

Vivemos o fim da privacidade emocional? Por que sentimos necessidade de contar tudo? Houve um tempo em que a intimidade era um território sagrado. Não porque as pessoas não tivessem problemas, dores ou dúvidas, mas porque certas experiências pertenciam ao silêncio. Hoje, o silêncio virou suspeito. Se não contamos, parece que não vivemos. Se não mostramos, parece que não sentimos. Se não publicamos, parece que não existimos. A pergunta incômoda é: em que momento a vida deixou de ser vivida para ser narrada?

O filósofo francês, Michel Foucault descreveu como a cultura ocidental transformou a confissão em um mecanismo de poder. Durante séculos, confessamos pecados à Igreja, segredos a médicos, desejos a terapeutas. Hoje, confessamos ao “feed”. Ele escreveu que o Ocidente se tornou uma “sociedade confessante”. Nunca paramos de falar sobre nós mesmos. Curtidas substituíram absolvições. Comentários substituíram conselhos. Visualizações substituíram escuta. Nunca falamos tanto sobre nós. Nunca fomos tão pouco escutados.

Assim passamos a tratar nossa intimidade como espetáculo. O sociólogo canadense, Erving Goffman comparou a vida social a um teatro: todos usamos máscaras, todos atuamos diante de uma plateia. Sua frase é brutalmente atual: “O mundo inteiro não é um palco, mas quase.” Mas havia bastidores. Hoje, os bastidores desapareceram. Brigas viram stories. Términos viram comunicados. Ansiedade vira thread. Luto vira postagem. A dor, que antes pedia recolhimento, agora pede engajamento.

A exposição emocional nas redes funciona como uma mistura de validação social, regulação de ansiedade e construção de identidade. Desde Sigmund Freud, sabemos que o ser humano busca reconhecimento para estabilizar o próprio ego; já o psicólogo americano, Abraham Maslow (um dos fundadores da psicologia humanista) colocou a necessidade de pertencimento e aprovação como uma das bases da motivação humana. As redes sociais transformaram essas necessidades em um sistema de recompensa instantânea: curtidas e comentários funcionam como reforços positivos no sentido behaviorista do psicólogo, também americano, B. F. Skinner, criando um ciclo de condicionamento que nos incentiva a compartilhar cada vez mais.

Outra psicóloga norte americana, Sherry Turkle, observou algo paradoxal: estamos cada vez mais conectados e cada vez mais solitários. Em suas palavras: “Esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros.”Essa exposição promete conexão, mas frequentemente nasce da solidão e da insegurança. Quanto menos certeza temos de quem somos, mais sentimos necessidade de narrar publicamente a própria vida para confirmar que ela é real.

Porém esquecemos que expor não é elaborar. Publicar não é processar. Receber emojis não é receber presença. Transformamos a intimidade em conteúdo, e o conteúdo, na internet,  precisa ser consumido rapidamente.

O filósofo sul coreano Byung-Chul Han descreve nossa época como a sociedade da transparência. Ele alerta: “A coerção da transparência nivela o ser humano.” O que é privado parece suspeito. O que é reservado parece falso. O que é silencioso parece esconder algo. Criamos uma nova moral: quem não se expõe não é autêntico.

Muito antes das redes sociais, o filósofo estoico Sêneca já alertava sobre a importância da interioridade. Ele escreveu: “Retira-te para dentro de ti mesmo.” Para os estoicos, a vida interior é um refúgio, não uma vitrine. A maturidade emocional exige silêncio, reflexão e reserva. A ideia de transformar a própria vida em espetáculo teria parecido, para eles, uma forma de escravidão.

Olhe ao seu redor e veja o quanto as pessoas viraram escravas de seus celulares, das redes sociais e da validação alheia. Já viu um casal no jantar em um restaurante, ambos sem conversar mas presos ao celular? Ou aquela pessoa filmando o pôr do sol sem contemplar de verdade o espetáculo? Aquele filme provavelmente ficará esquecido na memória digital. Enquanto que a memória emocional daquele momento nem foi guardada. Fotos e filmes dos bons momentos compartilhados na internet, não substituem a experiência de VIVER DE VERDADE.

Talvez a pergunta mais desconfortável seja esta: Se precisamos contar tudo o tempo todo… quando é que ainda estamos vivendo? Algumas experiências precisam de silêncio para existir. Algumas emoções precisam de segredo para amadurecer. Algumas dores precisam de privacidade para cicatrizar. Nem toda vida precisa de plateia. E talvez a última forma de liberdade que nos resta seja esta:

viver algo que ninguém verá ou saberá.

            E você? Tem consciência do quanto expõe sua privacidade emocional?

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