Caminhávamos numa plataforma de ferro ao lado de uma grande piscina. De repente surge, da água, um grande tubarão tentando morder quem passava. Gritos de susto e medo ecoaram. O "bicho” era muito realista, com dentes brancos afiados e movimentos naturais, mas era uma máquina construída para o filme Tubarão, do cineasta Steven Spielberg, lançado …
Coluna 33 Warly Pontes | O APRENDIZADO E O PERIGO DA ILUSÃO

Caminhávamos numa plataforma de ferro ao lado de uma grande piscina. De repente surge, da água, um grande tubarão tentando morder quem passava. Gritos de susto e medo ecoaram. O “bicho” era muito realista, com dentes brancos afiados e movimentos naturais, mas era uma máquina construída para o filme Tubarão, do cineasta Steven Spielberg, lançado em junho de 1975, nos EUA. Visitar um estúdio de cinema em Los Angeles é uma experiência incrível e todo mundo deveria ter essa oportunidade. Fiquei muito feliz nesse dia. Sou apaixonado por cinema desde criança e graças a ele acredito em coisas que muitos consideram ilusão, extraterrestres, por exemplo. Rs.
O ser humano inventou deuses, heróis, mitos, celebridades e salvadores da pátria. Mudaram os cenários, as tecnologias e os figurinos. A necessidade de acreditar permanece. Por quê?
No cinema, aceitamos que um homem voe, que mortos retornem e que mundos inteiros sejam destruídos diante dos nossos olhos. Sabemos que há truques, computação gráfica e efeitos especiais. Ainda assim, nos emocionamos. Durante algumas horas, preferimos a fantasia à realidade. Em A República, Platão, filósofo grego, apresentou a célebre alegoria da caverna: prisioneiros confundem sombras projetadas na parede com o mundo real. A metáfora atravessou os séculos. O problema não é apenas viver entre sombras, mas acreditar que conhecemos tudo porque aprendemos a reconhecê-las.
A fantasia, porém, não está apenas na tela. Ela também orienta nossas escolhas. A esperança é uma excelente vendedora. O filósofo francês Blaise Pascal escreveu, em Pensamentos, que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Nem sempre nossas convicções nascem de uma análise cuidadosa. Muitas vezes, sentimos primeiro e só depois reunimos argumentos para justificar o que já escolhemos.
No amor, essa fragilidade pode ser devastadora. Projetamos no outro as qualidades que esperamos encontrar. Ignoramos contradições, desculpamos abusos e confundimos ciúme com cuidado, controle com proteção e dependência com paixão. Há quem transforme essa carência em negócio. Golpes românticos exploram a solidão, fabricam intimidade e terminam em pedidos de dinheiro, investimentos ou emergências inventadas. A vítima não perde apenas recursos. Pode perder também a confiança na própria capacidade de julgar. Amar não é ingenuidade. Mas a necessidade de ser amado pode dificultar o reconhecimento dos fatos. A fantasia ganha força quando a verdade ameaça aquilo que mais valorizamos.
Cada época fabrica seus ídolos. O rádio transformou vozes em mitos. A televisão converteu rostos em celebridades e popularidade em autoridade. A internet ampliou esse processo: hoje, milhões de seguidores podem transformar um desconhecido em referência sobre política, saúde, dinheiro e comportamento. Mas alcance não é competência. A Popularidade não comprova conhecimento. Uma vida perfeita exibida em vídeos editados continua sendo uma encenação possível. Marshall McLuhan, filósofo canadense, resumiu essa dinâmica em Os meios de comunicação como extensões do homem: “o meio é a mensagem”. A forma de receber uma informação também molda sua interpretação. Nas redes, repetição, imagem, emoção e aprovação coletiva conferem aparência de verdade a afirmações nunca verificadas. O algoritmo não precisa convencer todos; basta manter cada grupo cercado por conteúdos que confirmem suas certezas. Seguimos quem sabe mais ou quem nos faz sentir melhor?
A política: é o maior espetáculo da esperança? Na política, a fantasia ganha palanques, slogans, jingles, vídeos emocionantes e promessas de redenção nacional. Um candidato oferece ordem, prosperidade, justiça ou proteção. Outro promete combater privilégios, reduzir desigualdades ou devolver dignidade ao povo. Alguns apresentam propostas consistentes. Outros vendem soluções mágicas para problemas complexos. O eleitor não escolhe apenas um programa de governo. Pode escolher uma comunidade, uma esperança ou um inimigo.
Em The Righteous Mind (A mente moralista), o psicólogo norte-americano Jonathan Haidt, mostra como intuições morais e vínculos coletivos influenciam os julgamentos políticos. Nem sempre raciocinamos para descobrir o que é verdadeiro; muitas vezes, usamos a razão para defender aquilo que já abraçamos. O adversário deixa de ser alguém com outra leitura do país e passa a representar uma ameaça moral. A crítica vira ofensa, a discordância vira traição e a eleição se transforma em campeonato.
O resultado da eleição no último domingo no Brasil, 25 de outubro, ilustra essa divisão: Lula foi reeleito com cerca de 51,8% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve aproximadamente 48,2%. Não é razoável concluir que um lado inteiro foi enganado. Mas é impossível ignorar a divisão ideológica que atravessa o país. O Brasil não está sozinho. Em diferentes democracias, a polarização afetiva (quando o cidadão passa a rejeitar o adversário como pessoa) tornou-se uma preocupação crescente. Pesquisas sobre países de renda baixa e média publicadas em 2026 apontam câmaras de eco e ambientes informacionais enviesados entre os fatores que podem alimentar esse processo. A questão ultrapassa partidos e fronteiras.
Uma pergunta sempre surge a quem se propõe a pensar, ou quem quer justificar a frustração da derrota: Os pobres são mais manipuláveis? Aqui é preciso muito cuidado. Associar pobreza ou baixa escolaridade à ignorância política é preconceito, não análise. A falta de educação de qualidade pode dificultar a verificação de informações, a compreensão de estatísticas e a identificação de argumentos enganosos. A vulnerabilidade econômica também torna promessas imediatas mais atraentes. Mas pessoas instruídas e ricas igualmente acreditam em teorias conspiratórias, compartilham notícias falsas e defendem líderes contra evidências. Dinheiro e diplomas não protegem ninguém contra vaidade, medo ou necessidade de pertencimento. Nossa vulnerabilidade nasce da combinação entre informação ruim, emoções exploradas, pensamento pouco crítico e ambientes que punem a dúvida. A educação não deveria ensinar o cidadão a votar como queremos. Deveria prepará-lo para questionar inclusive o candidato de sua preferência.
Existe um lado certo e outro errado? Existem fatos verificáveis, mentiras demonstráveis, propostas melhores e piores, atos legais e ilegais. A neutralidade não exige tratar todas as afirmações como equivalentes. Mas nenhuma corrente política possui o monopólio da verdade, da inteligência ou da virtude. Um eleitor pode apoiar uma boa proposta e, ainda assim, defender seu candidato em um erro evidente. O problema começa quando a lealdade substitui o julgamento. Se aceitamos qualquer mentira porque veio do nosso lado e rejeitamos qualquer verdade porque veio do adversário, já não defendemos ideias. Defendemos pertencimentos. O político que percebe isso pode deixar de prestar contas. Para que apresentar resultados quando basta manter a torcida mobilizada?
A verdade não precisa de torcida. Talvez o maior risco seja acreditar que somos imunes à manipulação. Rimos das fantasias do cinema, desconfiamos de promessas amorosas exageradas e criticamos influencers que vendem vidas perfeitas. Mas, diante do candidato preferido, suspendemos o mesmo ceticismo. Queremos um herói que resolva tudo, um líder que nunca erre e um adversário responsável por todos os nossos problemas.
A realidade é menos confortável: sociedades são complexas, seres humanos são contraditórios e nenhum governante possui poderes especiais. A democracia não exige pensamento único. Exige convivência, confronto de argumentos e fiscalização permanente dos vencedores. A questão final não é se a fantasia existe. Ela faz parte da experiência humana. A pergunta é outra: Quando a realidade contradiz nossas crenças, temos coragem de rever nossas ideias ou preferimos destruí-la para preservar nossas certezas?
A ilusão, a falsa promessa, o estelionato eleitoral tem um preço alto. Tipo quebrar um país economicamente ou dar espaço a ditadores que acabam com a dignidade do povo. Todos sentem, não só quem foi iludido. O maior triunfo da manipulação não ocorre quando alguém nos conta uma mentira. Acontece quando já não precisamos que ninguém nos engane: nós mesmos fazemos esse trabalho. E ainda chamamos isso de convicção. Pense nisso. E você, acredita em extraterrestres?










