A última noite do 58º Festival de Parintins se transformou em um grandioso ato de celebração e resistência cultural, com o Caprichoso apostando na força da floresta com o espetáculo "Kaá-Eté — Retomada pela vida" e o Garantido encerrando com o vibrante "Boi do Brasil", reafirmando a potência popular do Bumbá da Baixa da Xanda. …
Festival de Parintins: em última noite, Caprichoso reverencia povos originários e Garantido exalta cultura brasileira

A última noite do 58º Festival de Parintins se transformou em um grandioso ato de celebração e resistência cultural, com o Caprichoso apostando na força da floresta com o espetáculo “Kaá-Eté — Retomada pela vida” e o Garantido encerrando com o vibrante “Boi do Brasil”, reafirmando a potência popular do Bumbá da Baixa da Xanda.
O Festival de Parintins é uma das maiores manifestações culturais do Brasil, realizado anualmente na ilha de Parintins, no Amazonas. Durante três noites, os bois Caprichoso e Garantido protagonizam um espetáculo de cores, música, dança e tradição amazônica no Bumbódromo – uma espécie de arena, diante de mais de 120 mil pessoas. Misturando arte, religiosidade, crítica social e orgulho regional, o festival celebra a identidade do povo amazônida e encanta o país com sua grandiosidade e emoção.
Neste ano, o Caprichoso defendeu o tetracampeonato com o tema “É tempo de retomada”, enquanto o Garantido buscou seu 33° título com “Boi do Povo, boi do povão”.
A retomada azulada pela vida
O Boi Caprichoso abriu a terceira e última noite do Festival de Parintins com o espetáculo “Kaá-Eté – Retomada pela Vida”, unindo força estética e espiritualidade para defender a floresta e os povos que nela vivem.
Iniciando o espetáculo, foi projetada a imagem de Chico Mendes no chão do bumbódromo. Logo em seguida, o boi Caprichoso surgiu em um ‘homem borboleta’ que tomou a arena e levou a galera azulada ao delírio.
A apresentação destacou a lenda amazônica de Waurãga, reverenciada como a senhora e guardiã da floresta, responsável por convocar e comandar os Kãkãnemas, espíritos da mata que se manifestam no corpo dos animais de todas as espécies. Dentro da alegoria, a cunhã-poranga Marciele Albuquerque foi ovacionada pelo público.
Na sequência, a figura típica regional “O Seringueiro da Amazônia” ganhou destaque na arena, homenageando os trabalhadores da extração do látex e suas tradições, em especial, Chico Mendes. O boi azul levou para arena a filha do seringueiro e ativista, Ângela Mendes.
Encerrando o espetáculo do Caprichoso, o Ritual de Cura Yawanawá, com alegoria desenvolvida pelo artista Algles Ferreira, evidenciou a tradição ancestral do povo Yawanawá, que vive às margens do Rio Gregório, no Acre. A apresentação reverenciou os rituais de cura e a espiritualidade indígena.
No meio da galera, como item 19, o universitário Matheus Lucas, 26, expressou a emoção da última noite. “É muito gratificante estar aqui pela terceira vez, como se fosse a primeira vez. Acho que o Caprichoso veio preparado, é grandioso. Ele faz um espetáculo. O treta vem aí!”, comentou o torcedor.
O Boi do Brasil é vermelho
A apresentação iniciou destacando a riqueza e diversidade cultural do país, em uma grande celebração folclórica que homenageou bois de todas as regiões do Brasil, do Norte ao Sul, representando diferentes ritmos, cores e tradições, a qual também teve a exaltação do Boi Garantido, que evoluiu em uma mistura de sucessos do bumbá. A alegoria ainda trouxe a porta-estandarte Jevenny Mendonça, em uma aparição saindo do ‘coração do Brasil’ e, também, a sinhazinha Valentina Coimbra, que surgiu brincando de boi no meio da alegoria.
A apresentação do Garantido contou com um momento de homenagens ao compositor Chico da Silva, com toadas escritas por ele que marcaram o Festival de Parintins, como a toada “Vermelho”, e ainda com a despedida do tripa Denildo Piçanã. A lenda apresentada na terceira noite foi “A Deusa das Águas”, inspirada em uma das toadas mais marcantes do Festival. A alegoria, assinada pelo artista Glemberg Castro e sua equipe, impressionou pela grandiosidade, movimento e uso de tecnologias cênicas. A Rainha do Folclore, Lívia Christina, surgiu no módulo central da alegoria, com uma evolução marcada por uma transformação em yara.
A figura típica regional exaltou as artesãs indígenas, valorizando a mulher originária como guardiã da floresta. E destacou como suas criações artesanais são expressões de resistência cultural e preservação ambiental. A alegoria trouxe a aparição da cunhã-poranga Isabelle Nogueira, liderando uma celebração da força de mulheres indígenas, em mais uma noite marcada por transmutação na indumentária, se transformando em arara.
Um dos momentos mais aguardados da noite foi o “Ritual Bahsesé”, apresentado em uma alegoria assinada pelo artista Antônio Cansanção e equipe, que reuniu esculturas gigantes, com movimentos e a encenação do ritual indígena, que trouxe o pajé Adriano Paketá.
Um dos quatro pearas da Batucada, o mestre Francinaldo Pinheiro, 45, destacou que o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos quatro meses fortaleceu a confiança da equipe para a apresentação final na arena. “Estamos muito confiantes. Foram quatro meses de preparação intensa para chegar a esse momento decisivo, rumo ao título, junto com meus companheiros’’, destacou.
No meio da galera encarnada, a torcedora Carla Viegas, 58, revelou estar com o “coração a mil” diante da expectativa de uma possível vitória do Boi Garantido. Para ela, o bumbá vermelho e branco demonstrou toda a força de São José na busca pelo 33º título de sua história. “O coração está a mil, é uma expectativa enorme, uma espera que parece infinita. Estamos com sangue nos olhos, mais uma vez”, declarou.
A apuração do 58º Festival de Parintins acontece nesta segunda-feira (30/06), a partir das 14h.











