Paulinho da Força é escolhido relator do PL da Anistia: nome sinaliza tentativa de moderação e gera expectativa no Congresso

Indicação do deputado é vista nos bastidores como uma tentativa de moderação

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O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos‑PB), escolheu nesta quinta-feira (18) o deputado Paulinho da Força (Solidariedade‑SP) para relatar o polêmico Projeto de Lei da Anistia, que tramita em regime de urgência. A proposta, de autoria do deputado Marcelo Crivella (Republicanos‑RJ), busca conceder anistia a investigados e condenados por participação em atos de motivação política desde 30 de outubro de 2022 — data do segundo turno das eleições presidenciais — até a entrada em vigor da nova lei.

A escolha de Paulinho gerou reações distintas dentro do Parlamento. Considerado um nome experiente e de trânsito amplo entre diferentes bancadas, ele agora terá a missão de construir um texto que consiga equilibrar interesses da base bolsonarista, pressões institucionais e a opinião pública, ainda fortemente polarizada quanto aos eventos de 8 de janeiro de 2023.

Um relator que agrada ao centro

A indicação de Paulinho da Força é vista nos bastidores como uma tentativa de moderação. Presidente licenciado da Força Sindical e deputado com larga trajetória política, Paulinho é conhecido por seu estilo pragmático, pela capacidade de diálogo com múltiplos espectros ideológicos e por assumir, quando necessário, desgastes em pautas complexas.

Fontes ligadas à Mesa Diretora afirmam que Hugo Motta buscava exatamente esse perfil: alguém que pudesse elaborar um texto com “dosimetria de penas”, evitando tanto a radicalização quanto a impunidade. A expectativa é que o relatório de Paulinho não proponha um perdão total e irrestrito, mas sim a redução de penas ou atenuantes para casos considerados de menor gravidade — especialmente para pessoas que participaram de manifestações, mas não estiveram diretamente envolvidas em depredações ou agressões.

Relação com Bolsonaro: crítica, mas não hostil

Embora tenha se posicionado em diversos momentos de forma crítica ao governo Jair Bolsonaro, Paulinho da Força mantém uma relação política marcada mais pela autonomia do que pela oposição sistemática.

Em 2022, o deputado declarou que seu partido, o Solidariedade, “não apoiaria a reeleição de Bolsonaro em hipótese alguma”, adotando linha de oposição em várias pautas econômicas e trabalhistas. Ainda assim, sua sigla teve votações que, em diversas ocasiões, se alinharam às propostas do Executivo, sem declarar fidelidade à base.

Em 2021, Paulinho chamou apoiadores extremistas do presidente de “malucos” e afirmou que Bolsonaro havia “endoidado de vez” diante das ameaças feitas às instituições democráticas. Por outro lado, nunca chegou a se colocar como adversário visceral, e sempre defendeu o diálogo político como instrumento de pacificação.

Essa posição ambígua pode agora servir como ponte entre os grupos mais radicais do bolsonarismo e setores do Congresso que rejeitam a ideia de uma anistia ampla. O desafio será grande: agradar à base bolsonarista sem romper com os freios institucionais e jurídicos que envolvem os atos do 8 de janeiro.

Um teste para o centrão e para a República

A relatoria de Paulinho chega em um momento sensível da política nacional. O avanço do PL da Anistia é visto por aliados do ex-presidente como um passo crucial para “reparar excessos” no tratamento de manifestantes presos ou processados. Para críticos, no entanto, representa um risco de impunidade e revanchismo político.

O Supremo Tribunal Federal acompanha o tema com atenção. Ministros da Corte já sinalizaram que uma eventual anistia a crimes contra o Estado Democrático de Direito pode ser considerada inconstitucional, o que abriria uma nova frente de conflito entre Poderes.

Nesse contexto, o nome de Paulinho da Força aparece como aposta de equilíbrio — alguém capaz de apresentar uma proposta que atenda parcialmente os anseios da direita, sem colocar o Parlamento em confronto direto com o Judiciário.

Próximos passos

O texto ainda será discutido com líderes partidários, e a expectativa é de que Paulinho apresente um relatório preliminar nas próximas semanas. Há pressa entre os apoiadores do projeto, que desejam votar a proposta antes do recesso parlamentar.

Enquanto isso, a temperatura política promete subir. O conteúdo do relatório e a forma como o relator conduzirá os diálogos com a oposição, o governo e o Judiciário dirão muito não apenas sobre o destino da anistia, mas também sobre os rumos da governabilidade nos próximos meses.

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