Vivemos um tempo em que as crianças já nascem conectadas. Para elas, deslizar o dedo na tela é tão natural quanto brincar no quintal era para muitas gerações anteriores. Mas, por mais que dominem a tecnologia com facilidade, isso não significa que estejam preparadas para enfrentar os riscos que o ambiente digital oferece. Pelo contrário: …
Coluna 20 de Marcos Coerais I Mundo digital e a segurança das crianças


Vivemos um tempo em que as crianças já nascem conectadas. Para elas, deslizar o dedo na tela é tão natural quanto brincar no quintal era para muitas gerações anteriores. Mas, por mais que dominem a tecnologia com facilidade, isso não significa que estejam preparadas para enfrentar os riscos que o ambiente digital oferece. Pelo contrário: falta maturidade crítica para lidar com ameaças como desinformação, cyberbullying, assédio, exploração sexual e até manipulações algorítmicas que moldam o que elas veem, e, portanto, o que elas pensam.
Tenho percebido que, apesar dos avanços recentes, ainda estamos longe de um cenário ideal de proteção. A boa notícia é que passos importantes foram dados. Em agosto deste ano, por exemplo, foi aprovado o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), a Lei nº 15.211/2025, que redefine as obrigações das plataformas e cria uma arquitetura mais sólida de segurança online.
A nova lei determina que as plataformas implementem mecanismos de verificação de idade, supervisão familiar e vinculação obrigatória de contas de menores de 16 anos a seus responsáveis legais. Também exige a inclusão de controles parentais mais completos — como restrição de tempo de uso, aprovação de contatos e bloqueio de compras. Outro ponto importante é a calibragem dos algoritmos para impedir que crianças sejam expostas a conteúdos inadequados, além da proibição de monetizar ou impulsionar qualquer conteúdo com crianças em situações erotizadas.
E, finalmente, reforça que publicidade infantil e publicidade velada continuam ilegais, embora ainda muito presentes no ambiente digital. Essas medidas representam avanços importantes, mas não se sustentam sozinhas.
Porque proteger uma criança na internet é, acima de tudo, um trabalho compartilhado. É papel das plataformas garantir ambientes mais seguros. É papel do Estado fiscalizar e legislar. Mas também é, inevitavelmente, papel das famílias acompanhar, orientar e estar presente na vida digital dos filhos.
Outro movimento essencial está na área da educação. Diferente do simples letramento técnico — que ensina como usar a tecnologia —, a educação midiática busca desenvolver pensamento crítico. E isso é fundamental.
Por isso vejo com bons olhos a atualização da Estratégia Brasileira de Educação Midiática, que passa a valer em 2026. A primeira versão, em 2023, já apresentava diretrizes importantes, priorizando a formação de professores e a educação básica. Agora, o governo amplia esse escopo: livros didáticos vão incorporar o tema; mais cursos serão oferecidos; haverá diretrizes claras para o uso de celulares nas escolas; e todas as instituições de ensino deverão incluir educação midiática em seus currículos.
É um passo valioso para que nossas crianças aprendam a questionar, interpretar e entender o que consomem online. Em um mundo onde a informação circula em velocidade máxima, o pensamento crítico se torna a ferramenta mais poderosa de proteção.
A verdade é que não existe um único responsável, nem uma solução mágica. A segurança das crianças no ambiente digital depende de um ecossistema inteiro: leis bem-feitas, plataformas responsáveis, escolas preparadas e principalmente famílias participativas.
Eu acredito que estamos avançando — aos poucos, mas avançando. E, se conseguirmos caminhar juntos, teremos um mundo digital muito mais seguro e saudável para quem mais precisa dele: nossas crianças.











