Trajetória eleitoral mostra que o senador já teve forte presença na capital, mas sofreu uma ruptura com parte do eleitorado conservador
Manaus fecha as portas para Omar e resistência da Direita complica performance da candidatura ao governo

A relação política de Omar Aziz com Manaus atravessou diferentes fases. O senador iniciou sua trajetória eleitoral na capital, cresceu apoiado por importantes grupos políticos, ocupou a Vice-Prefeitura e chegou ao Governo do Amazonas com expressiva votação. Nos últimos anos, porém, esse vínculo eleitoral sofreu um desgaste significativo.
A nova pesquisa Projeta reforça uma constatação que já vinha aparecendo nas urnas: Manaus se transformou no principal obstáculo à tentativa de Omar de retornar ao Governo do Estado.
No primeiro turno, Roberto Cidade aparece com 22,76% das intenções de voto na capital, enquanto Omar registra 21,59%. A diferença é pequena e configura empate técnico, mas o segundo turno revela uma situação mais delicada que pode definir a eleição. O senador também registra rejeição de 20,37% em Manaus. Cidade aparece com 13,26%. Os dados sugerem que Omar mantém um eleitorado consolidado, mas enfrenta dificuldades para ultrapassar esse núcleo e conquistar novas parcelas da população.
A história política de Omar Aziz está diretamente ligada à capital. Ele foi eleito vereador de Manaus em 1992, tornou-se deputado estadual e, posteriormente, foi eleito e reeleito vice-prefeito na chapa de Alfredo Nascimento, em 1996 e 2000. Também ocupou a Secretaria Municipal de Obras antes de chegar ao Governo do Amazonas. Câmara Municipal de Manaus
Essa trajetória permitiu que Omar construísse uma base política importante dentro da cidade. Durante anos, ele esteve associado a grupos que dominavam a política amazonense e mantinham forte presença administrativa e eleitoral na capital.
Em 2008, entretanto, quando disputou diretamente a Prefeitura de Manaus, Omar terminou na terceira colocação. Recebeu 153.071 votos, correspondentes a 17,56% dos votos válidos. Amazonino Mendes e Serafim Corrêa avançaram ao segundo turno. Resultado da eleição municipal de Manaus em 2008. Aquela eleição mostrou que participar de uma estrutura política forte era diferente de construir uma liderança majoritária própria dentro da capital.
Omar alcançou seu melhor momento político depois de assumir o Governo do Amazonas, em 2010, com a renúncia de Eduardo Braga. Naquele mesmo ano, foi eleito governador no primeiro turno, com aproximadamente 64% dos votos válidos no estado.
Em 2014, renunciou ao governo para disputar o Senado e foi eleito com aproximadamente 930 mil votos, alcançando 58,51% dos votos válidos. Era o auge de seu poder eleitoral e da influência do grupo político que comandava o Estado. Omar aparecia naquele momento como uma liderança capaz de reunir votos tanto em Manaus quanto no interior. Sua candidatura representava a continuidade de uma estrutura política que havia vencido sucessivas eleições no Amazonas. A eleição de 2018 marcou a maior derrota da carreira recente de Omar.
Candidato ao Governo do Amazonas, ele recebeu apenas 142.804 votos em todo o estado, equivalentes a 8,07% dos votos válidos. Terminou na quarta colocação, atrás de Wilson Lima, Amazonino Mendes e David Almeida.
A derrota mostrou uma profunda mudança no comportamento do eleitorado. A população buscava nomes associados à renovação e demonstrava desgaste com os grupos que haviam comandado o Amazonas durante vários anos.
Manaus teve papel central nesse processo. Foi na capital que Wilson Lima construiu a base de sua vitória, impulsionado pelo sentimento de mudança e pela rejeição às forças políticas tradicionais.
Omar conseguiu se recuperar e foi reeleito senador em 2022, com 784.007 votos, correspondentes a 41,42% dos votos válidos no Amazonas.
O resultado estadual, entretanto, escondeu uma divisão geográfica politicamente importante. Omar construiu sua vitória no interior, enquanto Manaus lhe proporcionou uma derrota impressionante.
Dos 62 municípios do Amazonas, Omar foi o mais votado em 59. Menezes venceu em apenas um, justamente Manaus, o maior colégio eleitoral do estado. Os outros dois municípios ficaram com Luiz Castro. O episódio deixou um recado claro: Omar ainda possuía uma poderosa estrutura interiorana, mas já encontrava enorme resistência na capital, especialmente entre os eleitores conservadores e bolsonaristas.
Manaus apresentou, nas últimas eleições nacionais, um comportamento predominantemente conservador. O crescimento do bolsonarismo, a influência das igrejas evangélicas, o debate sobre segurança pública e a defesa de valores ligados à família ampliaram o espaço político da Direita na cidade.
Omar seguiu um caminho diferente. Tornou-se o maior aliado do presidente Lula no Amazonas, aproximou-se do PT e construiu sua candidatura ao governo dentro de uma coligação que reúne PSD, MDB, Republicanos e setores da esquerda. Essa composição fortalece Omar entre eleitores lulistas e dentro de estruturas partidárias tradicionais, mas amplia sua dificuldade entre os conservadores.
Sua atuação como presidente da CPI da Covid também aprofundou o distanciamento em relação ao eleitorado bolsonarista. Desde então, parte significativa da Direita passou a enxergá-lo como inimigo político, e não apenas como candidato de outro grupo. Omar ainda apresenta seu melhor resultado no interior. Segundo a Projeta, ele registra 30,55%, contra 26,17% de Cidade.
No segundo turno, porém, a vantagem praticamente desaparece: Omar tem 46,54% e Cidade chega a 45,15%. A diferença é de apenas 1,39 ponto percentual. Isso significa que o interior continua sendo a principal base de sustentação do senador, mas já não oferece a margem necessária para compensar uma derrota em Manaus.
No resultado estadual do segundo turno, Cidade aparece numericamente à frente, com 45,42%, contra 43,24% de Omar. O cenário é de empate técnico, considerando a margem de erro, mas produz um dado político incontornável: Omar lidera o primeiro turno e, mesmo assim, fica atrás quando a disputa é reduzida a dois candidatos.
A situação de Omar se complica porque seu problema não parece ser apenas de conhecimento. Depois de décadas ocupando cargos públicos, ele é um dos políticos mais conhecidos do Amazonas.Seu desafio é superar a resistência construída ao longo dos últimos anos, especialmente entre os eleitores de direita.
Omar pode percorrer bairros, intensificar agendas e ampliar a campanha em Manaus. Ainda assim, precisará enfrentar uma barreira essencialmente política e ideológica: convencer um eleitorado conservador a votar em um candidato aliado de Lula e apoiado pelo PT.
A história eleitoral mostra que Omar já teve grande força em Manaus. A eleição de 2008 revelou seus limites; a derrota de 2018 expôs seu desgaste; o resultado de 2022 confirmou a resistência conservadora; e a pesquisa Projeta de 2026 mostra que o problema permanece.
Omar ainda está vivo e competitivo na disputa. Mas, sem romper o bloqueio eleitoral de Manaus, sua vantagem no interior pode não ser suficiente para levá-lo novamente ao Governo do Amazonas.










