Falta de saneamento adequado causa mais de 160 mil internações hospitalares ao ano

No Amazonas, investimentos conduzidos pela Sedurb e UGPE buscam estruturar serviços de água e esgoto na capital e no interior

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Mais de 160 mil internações hospitalares foram registradas em 2024, em decorrência de doenças associadas à veiculação hídrica, conforme aponta o estudo “Saneamento e Saúde”, publicado em março de 2025 pelo Instituto Trata Brasil. O levantamento relaciona quadros como diarreias e parasitoses aos impactos da ausência de serviços adequados de água tratada e rede de esgoto, infecções que poderiam ser evitadas com investimentos em infraestrutura sanitária.

Para o médico sanitarista e ex-secretário de Saúde de Manaus, Homero de Miranda Leão, os números refletem uma realidade crônica em regiões vulneráveis. “A ausência de água tratada e de esgoto cria o ambiente ideal para doenças como diarreia, hepatite A, febre tifoide e parasitoses”, explica.

Segundo o especialista, os impactos vão além dos leitos hospitalares. A maior circulação dessas doenças afeta a população de forma ampla, comprometendo a qualidade de vida coletiva e mantendo uma pressão constante sobre o sistema de saúde. “Investimentos contínuos em saneamento reduzem a exposição a agentes contaminantes e produzem efeitos duradouros na saúde pública, diminuindo os riscos associados à água contaminada”, afirma.

O diagnóstico apontado pelo Trata Brasil e a análise do médico sanitarista ajudam a compreender por que expandir a infraestrutura básica ainda exige atenção especial na região. No Amazonas, esse cenário pede um olhar ainda mais focado quando o assunto é o avanço do esgotamento público.

De acordo com o Ranking do Saneamento de 2026, baseado em indicadores da mesma instituição, o estado vive um forte contraste: embora Manaus registre atendimento de água tratada acima de 97%, a rede de coleta de esgoto atende apenas cerca de um terço da capital (32%). No interior, a disparidade é ainda mais acentuada: o acesso à água encanada atende cerca de 81% da população, enquanto a rede de esgoto chega a menos de 14% das residências.

O saneamento básico é um direito garantido pela Constituição, mas ainda distante do cotidiano de muitas cidades, como explica o engenheiro civil Marcellus Campêlo. Especialista em Saneamento Básico, Campêlo afirma que as prefeituras, que administram o sistema, têm dificuldade para manter os investimentos necessários para a universalização dos serviços. O Marco Legal do Saneamento estabelece como meta para isso o ano de 2033.

Por conta disso, conforme ele relata, nos últimos anos o Governo do Estado fez investimentos significativos e deu apoio técnico para que os municípios possam enfrentar esse desafio, sobretudo no interior.

As ações foram executadas pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) e pela Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), órgãos que Marcellus Campêlo conduziu de 2019 a março de 2026, quando se desincompatibilizou para colocar o nome à disposição da Federação União Progressista (UP), como pré-candidato a deputado estadual. Campêlo é segundo vice-presidente do União Brasil no Amazonas e membro titular do diretório da UP no estado.

Conforme ele, os avanços alcançados nesse período demonstram que é possível reduzir o déficit de saneamento com planejamento, investimentos e gestão integrada. Ele cita como exemplos, os programas Social e Ambiental de Manaus e Interior (Prosamin+), na capital, e de Saneamento Integrado (Prosai), em Maués e Parintins, além da criação da Microrregião do Saneamento Básico (MRSB).

Em Manaus, pelo Prosamin+, foram construídos 100 quilômetros de redes de coleta de esgoto (com meta de atingir 160 km até 2027). Foram implantadas as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) Educandos, a maior da região Norte, construída pela UGPE, e Raiz, esta última erguida pela Águas de Manaus em terreno cedido pelo estado.

Já em Maués, onde o Prosai já foi concluído, o município passou a contar com mais de 50% de cobertura de rede de tratamento de esgoto e uma capacidade de reserva de água sete vezes superior à anterior, saindo de 227 mil litros para 1,7 milhão de litros.

Em Parintins, onde o Prosai iniciou em setembro de 2024, os resultados já são sentidos. O programa eliminou o problema de poços contaminados por metais pesados e hoje a cidade já recebe água 100% tratada nas torneiras. A implantação de rede de esgoto também começou e a cidade sairá do zero para a cobertura de 25%.

Avanço contínuo

Com a criação da MRSB, o saneamento básico poderá ser, agora, gerenciado e compartilhado entre estado e municípios, permitindo o financiamento para projetos de água e esgoto, com recursos federais e da iniciativa privada. “Essa regionalização permite que municípios pequenos tenham melhores condições de estruturar projetos e acessar recursos para o saneamento”, observa Marcellus Campêlo.

Outra atuação importante nessa área que ele destaca é o programa Água Boa, da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), órgão da Sedurb, em parceria com a Defesa Civil do Estado. O programa leva sistemas simplificados de abastecimento a comunidades isoladas, com instalação de caixas d’água e purificadores para ampliar o acesso à água de qualidade. Já implantou 670 sistemas simplificados em 56 municípios do interior. Somente em 2024, mais de 4,7 mil caixas d’água e 41 purificadores foram distribuídos em comunidades de difícil acesso, ampliando o acesso à água de qualidade.

Marcellus Campêlo ressalta que o desafio do saneamento no Amazonas exige soluções permanentes e integradas. “O Norte ainda convive com os menores índices de cobertura de água e esgoto do país. O caminho técnico para a região é a consolidação de projetos contínuos, capazes de apoiar os municípios a vencer esse déficit de forma planejada, garantindo que os resultados positivos cheguem de forma definitiva à mesa e à saúde da população”, conclui.

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